sábado, 9 de agosto de 2014

O Pastor como Despenseiro

Por John Stott
      Muitos dizem que o Brasil é o país do futuro. No mínimo, é um dos países que irá influenciar o futuro do mundo. Tem uma grande potencialidade de recursos e é um dos maiores países em extensão. É, também, um dos maiores em população. Um país em que Deus está fazendo uma grande obra. 

    O pastor é, talvez, um dos homens mais importantes neste quadro. Ao lado do evangelista, do apóstolo e do profeta (Ef 4.12), o trabalho do pastor é chave para o estabelecimento de uma Igreja sadia, obediente e reprodutiva dentro da sociedade brasileira. 

      Sem o pastor, todo trabalho de evangelismo e estabelecimento de novas igrejas vai durar apenas uma geração. Deus tem confiado uma grande responsabilidade ao pastor: o fortalecimento do rebanho e a edificação do corpo de Cristo, em amor, para cumprir com Seus propósitos. 

Para fazer isso, o pastor fala, ministrando a Palavra de Deus ao povo de Deus. A Bíblia usa a palavra “pregação”. Várias vezes, durante a semana, o pastor é chamado a pregar, quer dizer, a falar as palavras de Deus. Portanto, as perguntas básicas de todo pastor são: “O que falarei?” e “Onde descobrirei o que hei de falar?”. A resposta a essas perguntas está relacionada com aquilo que o pastor é e não é. 

O que o pastor não é 

O pastor, primeiramente, não é como o profeta que recebeu a revelação original da boca de Deus. Basicamente, Deus já nos revelou tudo o que queria revelar. Tudo que nós precisamos para a vida já está na Bíblia. Quando Ele fala hoje, por meio do Seu Espírito, é para aplicar a Palavra às nossas vidas. 

O pastor também não é um apóstolo, como os doze discípulos. Eles foram testemunhas oculares da ressurreição de Jesus e foram ordenados pessoalmente por Jesus Cristo a apascentar as Suas ovelhas. O pastor não tem a autoridade de uma pessoa que recebeu tudo pessoalmente das mãos de Jesus. O que ele fala é sujeito a discussão, porque ele não tem o monopólio da interpretação. 

Em terceiro lugar, o pastor não é um papagaio. Ele não é uma pessoa que colhe idéias de outros e repassa-as adiante como conhecimento próprio. 

Suas idéias não são achadas em qualquer lugar. Os seus sermões não são sacolas de trapos; quer dizer, idéias e pensamentos simplesmente colhidos de livros e de sermões que outros já pregaram. Não é errado usar as idéias de outras pessoas ou citar outros em nossos sermões. O problema com o papagaio é que ele não usa sua própria mente. Ele usa idéias, palavras e pensamentos de outros porque é preguiçoso. 

O que o pastor é 

Como, então, o pastor resolverá o seu problema básico de conseguir o que vai falar? O pastor, como Paulo, é um despenseiro dos mistérios de Deus (1Co 4.1,2). Um despenseiro é um administrador que cuida dos bens de uma outra pessoa. Os mistérios são a revelação de Deus preservada na Bíblia. Portanto, a mensagem do pastor não vem diretamente da boca de Deus, como a mensagem do profeta ou do apóstolo, nem da mente de outras pessoas, como a mensagem do papagaio, mas, da Palavra de Deus da qual ele é o despenseiro privilegiado. 

A palavra despenseiro significa “o gerente da casa”. O gerente da casa está debaixo da autoridade do dono da casa, com a responsabilidade de proteger, cuidar, ministrar e prestar contas de todos os bens ao dono. O depósito que Deus nos confiou é a Bíblia e o pastor, como despenseiro, tem a responsabilidade de distribuir este depósito ao povo com fidelidade (1Co 4.2). 

A motivação do pastor 

O fato de sermos despenseiros, deve ser um incentivo ao nosso trabalho. Deus tem colocado a Sua confiança em nós e desejamos demonstrar que merecemos tal confiança. 

É muito fácil para um pastor ficar desanimado ou abatido. Afinal, ele não lida com coisas mecânicas, mas com homens e mulheres. Nem sempre eles cooperam com as boas idéias do pastor. Muitas vezes, só reparam nos erros! 
O fato de que Deus achou por bem nos confiar tesouros tão valiosos, nos deve dar confiança no que fazemos. Não é possível ficar desanimado quando consideramos que o Deus do Universo nos confiou algo tão essencial como a ministração dos Seus mistérios ao Seu povo. 

Paulo diz que a pregação é algo que ele não pode deixar de fazer (1Co 9.16,17). É obrigado a trabalhar! Deus está dependendo do pastor, Seu despenseiro. Sua família também está esperando que o despenseiro a alimente. Só assim a casa terá sucesso. Só assim será bem administrada. 

A mensagem fiel do pastor 

A mensagem do pastor depende do fato de que ele é um despenseiro: sua mensagem não lhe pertence, mas pertence ao Senhor. Ele não a inventou. É algo que ele recebeu. Ele tem a responsabilidade de ser fiel à mensagem que lhe foi confiada através da Palavra de Deus. Como ser fiel à mensagem? Há três coisas que podemos fazer: guardar o bom depósito, ministrar o bom depósito e disciplinar-nos. 

Guardar o bom depósito 

Nas cartas a Timóteo, Paulo chama a sua atenção ao fato de que lhe foi confiado um depósito (1Tm 1.11; 2Tm 1.12) e exorta-o a guardar fielmente este depósito (1Tm 6.20; 2Tm 1.13,14). 

Ele deseja que Timóteo não deixe a mensagem ser modificada por causa da oposição de palavras vãs, baseadas numa ciência falsa, mas que fique fiel ao modelo de palavras sãs que recebeu de Paulo. 

Nós também recebemos, de Paulo e da Bíblia, as mesmas sãs palavras. Só podemos guardá-las bem, garantindo a comunicação pura e verdadeira, por meio do Espírito Santo que habita em nós (2Tm 1.14). 

Paulo é mais específico sobre como guardar este depósito. Em 2Co 2.17, ele afirma que não faz como muitos que falsificam a Palavra de Deus. Ao contrário, Paulo usava a Palavra de Deus com seriedade, para aquilo que Deus a tinha destinado. Em 4.2, no grego, ele diz que “não diluímos a Palavra de Deus”. 

A palavra “diluir” era usada no comércio de vinho. Alguns colocavam água no vinho para lucrar mais. A idéia é de que alguns “vendiam” a Palavra de Deus, visando lucro. Adulteravam a Palavra de Deus para fazê-la mais aceitável. Esse não é o nosso alvo. 

Não apresentamos a Palavra de Deus só para que os nossos ouvintes gostem. Porém, procuramos manifestar a verdade que nos foi confiada para que a tornemos conhecida. Somos despenseiros e é isso que nosso Mestre nos incumbiu a fazer. 

Ministrar o bom depósito 

Esta é a pregação: manifestar a verdade tal como está escrita na Bíblia. Portanto, cada sermão que pregamos deve ser uma exposição da verdade de Deus. Paulo recebeu a comissão de dar pleno cumprimento à Palavra de Deus (Cl 1.25). Aos presbíteros em Éfeso, ele disse: “jamais deixei de anunciar todo o desígnio de Deus!” (At 20.27). 

Todos temos nossas doutrinas favoritas ou trechos prediletos para pregar. Mas um despenseiro fiel não serve somente arroz em cada refeição. Ele serve a refeição completa e variada visando a boa alimentação de todos, A casa de Deus precisa de despenseiros que ministram sistematicamente toda a Palavra de Deus, tanto as passagens bem conhecidas como as pouco conhecidas. Como fazer isto? 

Precisamos nos avaliar: de que verdades estamos nos esquivando? Em quais estamos nos concentrando demais? Um método que nos mantém fiel à Palavra toda é seguir livros inteiros da Bíblia, capítulo por capítulo, versículo por versículo. 

Nossa exposição tem que ser simples e direta. Devemos demonstrar claramente o caminho que o povo deve seguir. Em 2 Tm 2.15, Paulo exorta Timóteo a estudar a fim de manejar bem a Palavra. Manejar pode ser traduzido por “cortar reto”, como em Pv 3.6: “Ele endireitará as tuas varedas”. Nossa exposição da Bíblia tem que ser simples, direta e fácil de entender. O sermão deve preparar para o povo uma estrada reta, fácil de seguir. 

A disciplina do pastor 

O bom despenseiro familiariza-se com todo o conteúdo do depósito. O depósito que está guardado nas Escrituras é tão extenso que uma longa vida de estudos não conseguiria esvaziar suas riquezas e variedades. A pregação expositiva não é fácil. Talvez por ser tão árdua é que ela é encontrada no ministério de tão poucos. Os únicos que estão preparados para realizar este ministério são os que estão preparados para seguir o exemplo dos apóstolos em Atos 6.4.

Eles acharam desperdício abandonar a pregação da Palavra para servir às mesas. Antes, “nos consagraremos ao ministério da Palavra”. Esses eram despenseiros fiéis. 

A pregação sistemática é impossível sem o estudo sistemático. Não é suficiente deslizar por cima de uns poucos versículos cada dia. Também não basta estudar um trecho quando vamos pregar sobre ele. Diariamente precisamos estar nos aprofundando na Palavra de Deus. Nós mesmos devemos estar imersos nela. Precisamos conhecer os grandes temas da Bíblia e aplicar os resultados do nosso estudo à nossa vida. 

Quando nos toca pregar sobre algo específico, então devemos nos aplicar ao estudo disciplinado, usando todos os recursos à nossa disposição. 

Queremos chegar ao entendimento pleno do significado da passagem e da aplicação dela à vida do povo. Isso é trabalho árduo. Para ser fiel (1Co 4.2), o despenseiro vai procurar conhecer bem o depósito que lhe foi confiado a favor do povo de Deus.

Adaptado de "Preacher's Portrait" de John Stott, por Douglas Spurlock.

Fonte: http://www.monergismo.com/textos/pastores/pastor_despenseiro_stott.htm

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Agradeço e será um prazer receber seu comentário que depois de aprovado será publicado.