sábado, 31 de maio de 2014

‘Overbooking’ na Arca de Noé?

Se você viaja de avião frequentemente, talvez já tenha passado pela desagradável experiência do overbooking. Como nem todo mundo que compra uma passagem de avião comparece ao aeroporto, pelos mais diversos motivos, as companhias aéreas — para evitar prejuízos — vendem mais passagens do que a capacidade máxima de passageiros da aeronave, antecipando que alguns passageiros possivelmente não virão. Todavia, quando há poucas desistências, faltam assentos para os passageiros e algumas pessoas não conseguem embarcar, mesmo tendo o bilhete em mãos. Isso é ooverbooking. Logo, compromissos são perdidos, férias são adiadas e os funcionários das companhias aéreas têm de pacientemente lidar com repetidas reclamações dos viajantes frustrados e furiosos.

O conceito de overbooking também é um dos argumentos utilizados pelos inimigos de Deus para debochar dos cristãos que creem que a arca construída por Noé foi capaz de acomodar tamanho número de animais. Em outras palavras, é frequente escutarmos que haveria mais “passageiros” do que “assentos” na arca de Noé.

Em primeiro lugar, a palavra hebraica (mîn) traduzida frequentemente como “espécie” em português (Gn 6.19,20) e como “tipo” em inglês (lit. kind) é um termo cujo significado exato é incerto, segundo o HALOT (The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament), p. 577. Entretanto, dado o uso dessa palavra no livro de Gênesis no sentido de, em vez de apontar para espécies bem definidas, servir para referências mais amplas (cf. Gn 1.24,25), percebemos que o termo denota um organismo que possui a capacidade de se reproduzir em outros organismos como ele mesmo. O conceito de “espécie”, como utilizamos atualmente, é bem mais restrito que isso, de modo que muitas “espécies” podem ser incluídas num único “tipo” bíblico. Logo, o termo “tipo”, utilizado por Moisés, é provavelmente próximo à moderna classificação taxonômica de “gênero” e, em alguns casos, uma unidade taxonômica maior, a “família”.

Ademais, deve-se ressaltar que nem todo tipo de animal precisou entrar na arca, pois poderia sobreviver ao dilúvio. Logo, Noé não precisou se preocupar com a acomodação e alimentação de 25 mil espécies de peixes, 1700 tunicados, 600 equinodermos, 107 mil moluscos, 10 mil celenterados, 4 mil poríferos, 31 mil protozoários, 35 mil espécies de nematoides bem como mamíferos aquáticos como golfinhos, baleias, leões-marinhos, morsas, etc. Noé também não precisou se preocupar com os mais de 1 milhão de artrópodes, como baratas, aranhas, lacraias e outros, que sobreviveriam ao dilúvio fora da arca.

É importante lembrar que Deus pediu a Noé que salvasse apenas os animais eleitos com “fôlego de vida em suas narinas” (Gn 6.17; 7.22). Para esses, houve espaço suficiente na arca de 135 metros de comprimento, 22,5 metros de largura e 13,5 metros de altura (Gn 6.15), divididos em três andares (Gn 6.16). Para ser mais específico, tais dimensões reveladas por Deus nas Escrituras nos permitem fazer alguns cálculos interessantes trazidos à luz pelos doutores Henry M. Morris e John C. Whitcomb, na década de 1990. Considerando o mui conservador número de animais na arca em 40 mil (que incluiria com boa margem os animais já extintos e ainda não catalogados), menos de 30% da capacidade total da arca seria ocupada por eles. Para ilustrar melhor, apenas um dos três andares estaria repleto de animais, deixando os dois andares remanescentes para mantimentos, para os oito tripulantes humanos e para suas bagagens, as quais não precisariam estar restritas às limitações de peso das atuais companhias aéreas! Resumindo: cabia muito mais seres vivos na arca que os que de fato foram nela salvos da destruição.

É provável que Deus tenha provido a arca com um considerável espaço ocioso para poder resistir às diversas forças oceânicas que sobreviriam à Terra durante o dilúvio. Todavia, é possível que Deus tenha permitido que calculássemos o volume não utilizado na arca para que refletíssemos sobre outra verdade bíblica: que poucos são os que atendem ao chamado de Deus embora haja espaço suficientes para muitos. Dessa forma, poucos desfrutam dela, pois, na prática, os demais optam pela morte.

As Escrituras nos mostram que a agenda de Noé foi marcada, por muito tempo, por duas pregações: a pregação de tábuas de cipreste em piche e a pregação da justiça (2Pd 2.5), que foi veementemente ignorada. Será que Noé viu os rostos das pessoas que o ignoraram e que poderiam ocupar tamanho espaço ocioso se tivessem aberto seus corações à pregação da justiça? Talvez sim. Todavia, a experiência de Noé é replicada ainda em nossos dias. Apresentamos uma nova “arca” — Jesus Cristo — para salvar definitivamente da morte eterna aqueles que creem nele, mas somos ignorados e desprezados.

Essa nova e perfeita “arca”, Jesus Cristo, nos advertiu: “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela” (Mt 7.13). Todavia, ele mesmo disse que seríamos poucos e que não tivéssemos medo: “Não tenham medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino” (Lc 12.32).

Ao que tudo indica, Jesus Cristo, a nova “arca”, semelhante à primeira, deve fechar com muito espaço ocioso... infelizmente!

Ev. Leandro Boer
Fonte: http://igrejaredencao.org.br/

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Poucos Salvos!

Tratado escrito por J.C.Ryle 
“São poucos os que se salvam?” – Lucas 13.23

Eu tomo por garantido que cada leitor deste texto se considera um Cristão. Você não gostaria de ser reconhecido como um deísta, ou um infiel. Você professa acreditar na Bíblia como sendo verdadeira. O nascimento de Cristo o Salvador, a morte de Cristo o Salvador, a salvação providenciada por Cristo o Salvador – todos esses são fatos que você provavelmente nunca duvidou. Mas, apesar de tudo, um Cristianismo como esse trará alguma vantagem para você finalmente? Ele fará à sua alma qualquer bem quando você morrer? Em resumo, você será salvo?

Talvez agora você seja jovem, forte e saudável. Talvez você nunca esteve doente na sua vida, e dificilmente saiba o que é sentir fraqueza e dor. Você se organiza e planeja para os anos futuros, e sente como se a morte estivesse distante, e fora de vista. Apesar disso, lembre-se, algumas vezes a morte ceifa jovens na flor da idade. O forte e saudável da família nem sempre será o que viverá mais. Seu sol pode declinar antes que sua vida tenha chegado ao meio-dia. Ainda um pouco de tempo, e você pode estar deitando em uma estreita, e silenciosa moradia, e as margaridas estarão crescendo em seu túmulo. E então, considere, você será salvo?

Talvez você seja rico e próspero neste mundo. Você tem dinheiro, e tudo que o dinheiro pode comprar. Você tem “honra, amor, obediência, legiões de amigos”[1]. Mas, lembre-se, “tesouro não dura para sempre”. Você não pode mantê-las por mais que uns poucos anos. “Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” (Provérbios 27.24; Hebreus 9.27). E então, considere: – Você será salvo?

Talvez você seja pobre e necessitado. Você dificilmente tem o suficiente para prover alimento e vestuário para si e para sua família. Você muitas vezes está angustiado por falta de conforto, que você não tem poder para conseguir. Como Lázaro, você parece ter somente “males”, e nenhum bem. Mas, mesmo assim, você se consola com o pensamento que haverá um fim de tudo isto. Há um mundo por vir, onde pobreza e carência serão desconhecidas. Apesar disso, considere por um momento: – Você será salvo?

Talvez você tenha um corpo fraco e doente. Você quase não sabe o que é estar livre da dor. Você se apartou a tanto tempo da companhia da saúde, que você quase esqueceu como é. Você já disse muitas vezes pela manhã, “Quem me dera ver a noite,” e à tarde “Quem me dera ver a manhã”[2]. Há dias quando você é tentado pelo muito cansaço a lamentar com Jonas, “Melhor me é morrer do que viver” (Jonas 4.3). Mas, lembre-se, a morte não é tudo. Existe algo além do túmulo. E, então, considere: – Você será salvo?

Se ser salvo fosse algo fácil, eu não escreveria como fiz neste volume. Mas será que é? Vamos ver.

Se a opinião comum do mundo em relação ao número de salvos estivesse correta, eu não aborreceria homens com busca e questões difíceis. Mas e então? Vamos ver. Se Deus nunca tivesse falado claramente na Bíblia sobre o número dos salvos, eu poderia muito bem ficar em silêncio. Mas e então? Vamos ver.

Se a experiência e os fatos nos deixassem duvidosos se muitos ou poucos serão salvos, eu ficaria em paz. Mas será que é assim? Vamos ver.

Há quatro pontos que eu proponho examinarmos em consideração ao assunto diante de nós.

I. Permita-me explicar o que é ser salvo.

II. Permita-me apontar erros que são comuns no mundo sobre o número de salvos.

III. Permita-me mostrar o que a Bíblia diz sobre o número de salvos.

IV. Permita-me apresentar alguns fatos simples sobre o número de salvos.

Uma análise calma desses quatro pontos, em dias de descuidos abundantes sobre religião vital, será de suma importância para nossas almas.

I. Em primeiro lugar deixe-me explicar o que é ser salvo.

Este é um assunto que precisa ser esclarecido. Até que saibamos disso, não faremos nenhum progresso. Por ser “salvo” eu posso ter em mente uma coisa, e você pode ter em mente outra. Deixe-me mostrá-lo o que a Bíblia diz sobre ser “salvo”, e então não haverá mal-entendidos.

Ser salvo não é meramente professar e chamar a nós mesmos de Cristãos. Podemos ter todas as partes exteriores do Cristianismo, e ainda estarmos perdidos apesar de tudo. Nós podemos ser batizados na Igreja de Cristo, participar da mesa de Cristo, ter conhecimento Cristão – ser reconhecidos como homens e mulheres Cristãs; e ainda sermos almas mortas por toda nossa vida – e ao fim, no dia do julgamento, se achar à esquerda de Cristo, entre os bodes. Não: isto não é salvação! Salvação é algo muito maior e mais profundo que isto. Agora, o que é?

(a) Ser salvo é ser liberado nesta vida presente da culpa do pecado, pela fé em Jesus Cristo, o Salvador. É ser perdoado, justificado, e livre de cada acusação de pecado, pela fé no sangue de Cristo e em Sua mediação. Todo aquele que com seu coração crê no Senhor Jesus Cristo, é uma alma salva. Ele não perecerá. Ele tem a vida eterna. Esta é a primeira parte da salvação, e a origem de todo resto. Mas isto não é tudo.

(b) Ser salvo é ser liberado nesta vida presente do poder do pecado, pelo novo nascimento, e santificado pelo Espírito de Cristo. É ser livre do domínio abominável do pecado, do mundo, e do diabo, tendo uma nova natureza introduzida em nós pelo Espírito Santo. Todo aquele que é dessa maneira renovado no espírito de sua mente, e convertido, é uma alma salva. Ele não perecerá. Ele entrará no reino glorioso de Deus. Esta é a segunda parte da salvação. Mas ainda não é tudo.

(c) Ser salvo é ser liberado no dia do julgamento, de todas as terríveis consequências do pecado. É ser declarado inocente, imaculado, irrepreensível, e completo em Cristo, enquanto outros são achados culpados e condenados para sempre. É ouvir aquelas palavras confortantes: – “Vinde, benditos!”; enquanto outros ouvem aquelas palavras atemorizantes: – “Apartai-vos de mim, malditos!” (Mateus 25.34,41). É ser aceito e confessado por Cristo, como um de Seus filhos e servos queridos, enquanto outros são rejeitados e lançados fora para sempre. É ser declarado livre da parte do iníquo: – do bicho que nunca morre, do fogo que nunca se apaga, do choro, do gemido, e do ranger de dentes, que nunca tem fim. É receber a recompensa preparada para os justos, no dia da segunda vinda de Cristo – o corpo glorioso, o reino incorruptível, a incorruptível coroa de glória, e a alegria eterna. Esta é a salvação completa. Esta é a “redenção” que os verdadeiros Cristãos são encorajados a olhar e desejar (Lucas 21.28). Esta é a herança de todos os homens e mulheres que creem e nascem de novo. Pela fé eles já são salvos. Aos olhos de Deus sua salvação final é uma coisa absolutamente certa. Seus nomes estão no livro da vida. Suas mansões no céu já estão preparadas. Mas ainda há uma parte da redenção e da salvação que eles não alcançarão enquanto estiverem no corpo. Eles são salvos da culpa e poder do pecado; mas não da necessidade de vigiar e orar. Eles são salvos do medo e amor do mundo, mas não da necessidade diária de lutar. Eles são salvos da servidão do diabo; mas não são salvos de serem atormentados por suas tentações. Porém quando Cristo vier a salvação dos crentes estará completa. Eles já a possuem no broto[3]. Eles a verão então na flor.

Salvação é isto. É ser salvo da culpa, poder, e consequências do pecado. É crer e ser santificado hoje, e ser salvo da ira de Deus no último dia. O salvo que tem a primeira parte na vida presente, terá sem dúvida a segunda parte na vida por vir. Ambas as partes serão unidas. O que Deus juntou, nenhum homem tente dividir. Que ninguém sonhe que será salvo no fim, se primeiro não nascer de novo. Que ninguém duvide, se nasceu de novo aqui, que certamente será salvo no mundo porvir.

Que nunca seja esquecido que o objetivo principal de um ministro do Evangelho é promover a salvação das almas. Eu afirmo como um fato certo que não é um ministro verdadeiro quem não sente isso. Não falo de mandamento de homens! Tudo pode estar sendo feito corretamente, e de acordo com as regras. Ele pode usar um casaco preto, e ser chamado de “reverendo”. Mas se a salvação das almas não é o grande interesse – a paixão dominante; o pensamento cativante de seu coração – ele não é um verdadeiro ministro do Evangelho: ele é um assalariado, e não um pastor. Congregações podem tê-lo chamado, mas ele não é chamado pelo Espírito Santo. Bispos podem tê-lo ordenado, mas não Cristo.

Para qual propósito os homens supõem que os ministros são enviados à frente? É meramente para usar um sobrepeliz, e ler as cerimônias, e pregar um certo número de sermões? É meramente para administrar os sacramentos, e oficiar em casamentos e funerais? É meramente para ter uma vida confortável, e estar em uma profissão respeitável? Não, sem dúvida! Nós somos enviados avante para outros fins que esses. Nós somos enviados para trazer homens das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus. Nós somos enviados para convencer homens a fugir da ira vindoura. Nós somos enviados para atrair homens do serviço do mundo para o serviço para Deus, para despertar os que dormem – para alertar o desatento – e “por todos os meios chegar a salvar alguns” (1 Coríntios 9.22).

Não pense que tudo acaba quando estabelecemos cerimônias regulares, e persuadimos as pessoas a assisti-las. Não pense que tudo acaba, quando congregações cheias estão reunidas, e a mesa do Senhor está repleta, e a escola paroquial está lotada. Nós queremos ver a obra manifesta do Espírito entre o povo, um senso evidente de pecado, uma fé vigorosa em Cristo – uma resoluta mudança de coração, uma separação nítida do mundo, uma andar santo com Deus. Em resumo, nós queremos ver almas salvas – e nós somos tolos e impostores, cegos condutores de cegos, se descansamos satisfeitos com qualquer coisa menos que isso.

Afinal, o grande objetivo de ter uma religião é ser salvo. Esta é a grande questão que temos que assentar em nossas consciências. O assunto para nossa consideração não é se vamos à igreja ou à capela – se nos aprofundamos em certos costumes e cerimônias – se observamos certos dias, e executamos um certo número de deveres religiosos. O importante é se, depois de tudo, nós seremos “salvos”. Sem isso todos os nossos atos religiosos são desgastantes e o labor é em vão.

Nunca, nunca nos contentemos com algo menos do que uma religião salvífica. Seguramente estar satisfeito com uma religião que não dá nenhuma paz na vida, nenhuma esperança na morte, nenhuma glória no mundo que virá, é estupidez infantil.

II. Deixe-me, em segundo lugar, apontar os erros que são comuns no mundo sobre o número de salvos.

Eu não preciso ir longe demais para encontrar provas sobre este assunto. Eu irei falar de coisas que cada homem pode ver com seus próprios olhos, e ouvir com seus próprios ouvidos.

Eu tentarei mostrar que há uma ilusão abundante externa sobre este assunto, e que esta completa ilusão é um dos maiores perigos a que nossas almas estão expostas.

(a) O quê então os homens geralmente pensam sobre o estado espiritual dos outros enquanto estão vivos? O que eles pensam das almas de seus parentes, e amigos, e vizinhos, e conhecidos? Vejamos então como essa questão pode ser respondida.

Eles sabem que todos ao seu redor irão morrer, e serão julgados. Eles sabem que possuem almas para serem perdidas ou salvas. E como, ao que tudo indica, eles consideram que provavelmente será o seu fim?

Eles acham que aqueles ao seu redor estão em perigo do inferno? Não há nada em qualquer um que mostre que eles pensem assim. Eles comem e bebem juntos; eles riem, e falam, e andam, e trabalham juntos. Eles raramente falam um ao outro sobre Deus e a eternidade, sobre céu e inferno. Eu pergunto a qualquer um, que conhece o mundo, como diante de Deus, não é assim?

Eles irão admitir que alguém é ímpio e profano? Nunca, dificilmente, não importa qual seja seu estilo de vida. Ele pode ser um transgressor do Sábado[4]; ele pode ser indiferente à Bíblia; ele pode ser totalmente sem evidência da verdadeira religião. Não importa! Seus amigos frequentemente dirão que ele pode não ser tão religioso como alguns, mas que no fundo ele tem um “bom coração”, e que não é um homem mau. Eu pergunto a qualquer um, que conhece o mundo, como diante de Deus, não é assim?

E o que tudo isso prova? Prova que os homens se gabam dizendo que não há grande dificuldade para chegar ao céu. Prova claramente que os homens são da opinião que muitas pessoas serão salvas.


(b) E o quê os homens geralmente pensam sobre o estado espiritual dos outros depois de mortos? Vejamos então como essa questão pode ser respondida.

Os homens concordam, se não disserem o contrário, que todos que morrem irão para um lugar de felicidade, ou de miséria. E para qual desses dois lugares eles parecem achar que grande parte das pessoas vão, quando elas deixam esse mundo?

Eu afirmo, sem medo de contradição, que há um infeliz costume de falar bem da condição de todos que se despedem desta vida. Aparentemente, pouca importa, como um homem se comportou enquanto viveu. Ele pode não ter dado nenhum sinal de arrependimento, ou fé em Cristo; ele pode ter sido ignorante sobre o plano de salvação exposto no Evangelho; ele pode não ter mostrado qualquer evidência de conversão ou santificação; ele pode ter vivido e morrido como uma criatura sem uma alma. Ainda assim, tão logo esse homem morra, as pessoas ousarão dizer que ele é agora “provavelmente mais feliz do que ele foi nessa vida”. Eles dirão complacentemente, que “esperam que ele tenha ido para um lugar melhor”. Eles irão menear suas cabeças gravemente, e dizer que “esperam que ele esteja no céu”. Eles irão segui-lo para o túmulo sem temor e tremor, e falar de sua morte mais tarde como “uma mudança bendita para ele”. Eles podem não ter gostado dele, e pensado como ele era um homem mau enquanto estava vivo; mas a partir do momento que ele está morto eles voltam atrás em suas opiniões e dizem confiar que ele tenha ido para o céu. Eu não desejo machucar os sentimentos de ninguém. Eu somente pergunto a qualquer um, que conhece o mundo, que isso não é verdade?

E o que tudo isso prova? Isto apenas fornece mais uma terrível prova que os homens estão determinados a acreditar que é um negócio fácil chegar ao céu. Os homens concordarão que mais pessoas serão salvas.

(c) Mas novamente, o que geralmente os homens pensam de ministros que pregam integralmente as doutrinas do Novo Testamento? Vejamos como essa questão pode ser respondida.

Envie um clérigo para uma paróquia que “anuncie todo o conselho de Deus”, e “o que útil seja”[5]. Deixem-no que seja aquele que claramente proclame a justificação pela fé, a regeneração pelo Espírito, e santidade de vida. Deixem-no que seja aquele que trace a linha de forma nítida entre os convertidos e os não convertidos, e dê tanto aos pecadores quanto aos santos a sua porção. Deixem-no que frequentemente apresente pelo Novo Testamento uma franca e irreplicável descrição do verdadeiro caráter Cristão. Deixem-no que mostre que aqueles que não possuem esse caráter não devem ter nenhuma esperança razoável de ser salvo. Deixem-no que constantemente grave essa descrição na consciência de seus ouvintes, e exorte-os repetidamente que cada alma que morre sem aquele caráter está perdida. Deixem-no que faça isso, hábil e ternamente, e depois de tudo, qual será o resultado?

O resultado será, que enquanto alguns poucos se arrependem e são salvos, a grande maioria de seus ouvintes não receberá nem crerá na sua doutrina. Eles podem não se opor a ele publicamente. Podem até mesmo estimá-lo, e respeitá-lo como um homem sério, sincero, bondoso, que tem boas intenções. Mas não irão além disso. Ele pode mostrá-los as palavras expressas por Cristo e Seus Apóstolos; pode citar texto após texto, e passagem após passagem: mas será em vão. A grande maioria de seus ouvintes o achará “tão rígido”, e “tão fechado”, e “tão particular”. Eles dirão entre si que “o mundo não é tão mau como o ministro parece pensar” – e que “as pessoas não podem ser tão boas como o ministro quer que sejam”, e que depois de tudo, eles esperam estar todos certos no final! Eu apelo a qualquer ministro do Evangelho, que tenha passado qualquer tempo no ministério, se eu não estou declarando a verdade. Essas coisas não são assim?

E o que isso prova? Simplesmente produz mais uma prova que os homens geralmente estão decididos a pensar que a salvação não é um negócio muito difícil, e que depois de tudo mais pessoas serão salvas.

Agora que razão sólida eles podem nos mostrar para essas opiniões em comum? Em que Escritura eles baseiam essa noção, que a salvação é um negócio fácil, e que mais pessoas serão salvas? Qual revelação de Deus podem nos mostrar, que nos satisfazem que essas opiniões são sadias e verdadeiras?

Eles não têm nenhuma, literalmente nenhuma. Eles não possuem nenhum texto das Escrituras que, corretamente interpretado, apoie suas visões. Eles não têm nenhuma razão que suporte um exame. Eles falam coisas brandas sobre um ou outro assunto espiritual, apenas porque eles não gostam de admitir que o perigo existe. Eles edificam um ao outro em um estado da alma fácil, e de autossatisfação, para tranquilizar suas consciências e fazerem coisas agradáveis. Eles clamam “Paz, paz”[6], sobre seus túmulos, porque eles querem que seja assim, e ficariam satisfeitos se convencendo que é assim. Certamente diante de opiniões vazias, e sem fundamentos como essas, um ministro do Evangelho pode muito bem protestar.

A simples verdade é que a opinião do mundo não vale nada em matéria de religião. Sobre o preço de um boi, ou um cavalo, ou de uma fazenda, ou sobre o valor do trabalho – sobre salários e trabalho, sobre dinheiro, algodão, carvão, ferro e grão, sobre artes, e ciências, e indústrias, e ferrovias, e comércio, e negócios, e política, sobre todas as coisas semelhantes a essas os homens do mundo podem dar uma opinião correta. Mas precisamos ter cuidado, se temos amor pela vida, em ser guiados pelo julgamento dos homens nas coisas que concernem à salvação. “O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura” (1 Coríntios 2.14).

Deixem-nos recordar, acima de tudo, que não basta pensar como os outros pensam, se quisermos chegar ao céu. Sem dúvida é uma ação fácil “ir com a multidão” em matéria de religião. Seremos salvos de muitos problemas se nadarmos a favor da correnteza e da maré. Seremos poupados de muitos escárnios: seremos isentos de muitos desagrados. Mas lembremo-nos, de uma vez por todas, que os erros do mundo sobre salvação são muitos e perigosos. A menos que nos guardemos contra eles nunca seremos salvos.

III. Deixe-me mostrar, em terceiro lugar, o que a Bíblia diz sobre o número de salvos.

Há somente um padrão de verdade e erro para o qual devemos recorrer. Este padrão é a Sagrada Escritura. Devemos receber e crer em tudo quanto nela está escrito: devemos recusar qualquer coisa que não possa ser provada pela Escritura.

Algum leitor desse texto pode aceitar isso? Se ele não pode, há pouca chance dele ser movido por qualquer palavra minha. Se ele pode, deixe-me ter sua atenção por alguns momentos, e eu lhe direi algumas coisas solenes.

Olhemos, então, para um ponto, um único texto da Escritura, e o examinemos bem. Nós o encontraremos em Mateus 7.13,14: – “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem”. Estas são as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo. Estas são as palavras Daquele que era o próprio Deus, palavras essas que nunca hão de passar. São palavras Dele que sabia o que estava no homem, e que sabia as coisas que haviam de ser, e as coisas passadas – que sabia que Ele haveria de julgar todos os homens no último dia. E o que essas palavras significam? Elas são palavras que nenhum homem pode entender sem um conhecimento de hebraico ou grego? Não: não são! Elas são uma obscura, e não cumprida profecia, como as visões em Apocalipse, ou a descrição do templo de Ezequiel? Não: não são! Elas são um ditado profundamente misterioso, que nenhum intelecto humano pode compreender? Não: não são! As palavras são claras, simples, e inconfundíveis. Pergunte a qualquer trabalhador que saiba ler, e ele lhe dirá desse modo. Há somente um significado que pode ser associado a elas. Seu significado é, que muitas pessoas se perderão, e poucas serão salvas.

Vejamos, em seguida, na história inteira da humanidade no que diz respeito à religião, como nos foi dado na Bíblia. Vamos através de quatro mil anos, até onde a história da Bíblia alcança. Encontremos, se pudermos, um único período de tempo em que pessoas devotas foram maioria, e pessoas profanas foram minoria.

Como foi nos dias de Noé? É nos dito expressamente que a terra “encheu-se de violência”. A imaginação dos corações dos homens era só “má continuamente” (Gênesis 6.5-12). Porque “Toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”. A perda do paraíso foi esquecida. Os avisos de Deus, pela boca de Noé, foram desprezados. E finalmente, quando o dilúvio veio sobre o mundo e afogou cada criatura viva, haviam apenas oito pessoas que tiveram fé suficiente para escapar refugiando-se na arca! Foram muitos que se salvaram naqueles dias? Deixo que qualquer leitor honesto da Bíblia dê uma resposta a essa questão. Não pode haver dúvida de qual deve ser a resposta.

Como foi nos dias de Abraão, Isaque, e Ló? É evidente que em matéria de religião eles permaneceram solitários. A família de onde cada um deles foi tirado era uma família de idólatras. As nações entre as quais eles viviam estavam mergulhadas em densas trevas e no pecado. Quando Sodoma e Gomorra foram queimadas não havia cinco justos para serem encontrados nas quatro cidades da planície. Quando Abraão e Isaque desejaram encontrar esposas para seus filhos, não havia nenhuma mulher na terra onde eles peregrinavam, com quem eles desejavam vê-los casados. Havia muitos salvos naqueles dias? Deixo que qualquer leitor honesto da Bíblia dê uma resposta a essa questão. Não pode haver dúvida de qual deve ser a resposta.

Como foi com Israel nos dias dos Juízes? Ninguém pode ler o livro de Juízes, e não ficar impressionado com os tristes exemplos da corrupção dos homens que ele fornece. Período após período nos é dito do povo abandonando a Deus, e seguindo aos ídolos. Em oposição às claras advertências, eles se uniram em afinidade com os Cananitas, e aprenderam suas obras. Período após período lemos sobre eles sendo oprimidos pelos reis estrangeiros, por causa de seus pecados, e então sendo miraculosamente libertados. Período após período lemos da libertação sendo esquecida, e do povo retornando aos seus pecados anteriores, como a porca lavada que retorna ao espojadouro de lama[7]. Havia muitos salvos naqueles dias? Deixo que qualquer leitor honesto da Bíblia dê uma resposta a essa questão. Não pode haver dúvida de qual deve ser a resposta.

Como foi com Israel nos dias dos Reis? Desde Saul, o primeiro rei, até Zedequias, o último rei, sua história é um registro melancólico de apostasia, decadência e idolatria – com uns poucos períodos excepcionais de brilho. Mesmo sob os melhores reis parecia haver uma vasta quantidade de incrédulos e ímpios que apenas se metiam no esconderijo por uma estação, e invadiam na primeira oportunidade favorável. Repetidamente encontramos sob os reis mais zelosos; “os altos não se tiravam”. Perceba como mesmo Davi fala do estado das coisas ao seu redor: “Salva-nos, SENHOR, porque faltam os homens bons; porque são poucos os fiéis entre os filhos dos homens” (Salmos 12.1). Perceba como Isaías descreve a condição de Judá e Jerusalém: “Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã” – “Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes à Gomorra.” (Isaías 1.5-9). Perceba como Jeremias descreve seu tempo: “Dai voltas às ruas de Jerusalém, e vede agora; e informai-vos, e buscai pelas suas praças, a ver se achais alguém, ou se há homem que pratique a justiça ou busque a verdade; e eu lhe perdoarei” (Jeremias 5.1). Perceba como Ezequiel fala dos homens de seu tempo: “E veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Filho do homem, a casa de Israel se tornou para mim em escórias; todos eles são bronze, e estanho, e ferro, e chumbo no meio do forno; em escórias de prata se tornaram” (Ezequiel 22.17-18). Perceba o que ele diz nos décimo sexto e vigésimo terceiro capítulos da sua profecia sobre os reinos de Judá e Israel. Haviam muitos salvos naqueles dias? Deixo que qualquer leitor honesto da Bíblia dê uma resposta a essa questão. Não pode haver dúvida de qual deve ser a resposta.

Como foi com os judeus quando nosso Senhor Jesus Cristo estava na terra? As palavras de João são o melhor registro do estado espiritual deles: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (João 1.11). Ele viveu como nenhum nascido de mulher tinha vivido antes – uma inculpável, inocente, e santa vida. “Andou fazendo bem” (Atos 10.38). Ele pregou como ninguém havia pregado antes. Mesmo os servidores de seus inimigos confessaram, “Nunca homem algum falou assim como este homem” (João 7.46). Ele fez milagres para confirmar Seu ministério, que, à primeira vista, podemos imaginar que teria convencido o mais endurecido. Mas, não obstante tudo isso, a grande maioria dos judeus recusaram-se a crer n’Ele. Seguiram nosso Senhor em todas as Suas viagens pela Palestina, e você sempre encontrará a mesma história. Seguiram-no dentro da cidade, seguiram-no pelo deserto; seguiram-no por Cafarnaum e Nazaré, e seguiram-no por Jerusalém; seguiram-no entre Escribas e Fariseus, e seguiram-no entre Saduceus e Herodianos: por todo lugar você chegará ao mesmo resultado. Eles ficaram impressionados – calaram-se; eles ficaram atônitos – maravilharam-se; mas muitos poucos tornaram-se discípulos. A grande parcela da nação não queria receber a Sua doutrina, e coroaram toda a sua iniquidade levando-O à morte. Haviam muitos salvos naqueles dias? Deixo que qualquer leitor honesto da Bíblia dê uma resposta a essa questão. Não pode haver dúvida de qual deve ser a resposta.

Como foi com o mundo nos dias dos Apóstolos? Se houve um período quando a verdadeira religião floresceu foi aquele. Nunca o Espírito Santo foi invocado ao aprisco de Cristo por tantas almas no mesmo período de tempo. Nunca houve tantas conversões devido a pregação do Evangelho do que quando Paulo e seus companheiros – trabalhadores – foram os pregadores.Mesmo assim, fica claro em Atos dos Apóstolos, que “em toda a parte se falava contra” o verdadeiro Cristianismo (Atos 28.22). É evidente que em cada cidade, mesmo na própria Jerusalém, verdadeiros Cristãos eram uma pequena minoria. Nós lemos dos perigos de todos os tipos que Apóstolos tinham de enfrentar – não apenas perigos de fora, mas perigos de dentro, não apenas perigos dos gentios, mas perigos entre falsos irmãos.[8] Dificilmente lemos de uma única cidade visitada por Paulo onde ele não estava em perigo de sofrer violência ou perseguição aberta. Nós vemos simplesmente, em algumas de suas epístolas, que as Igrejas professantes eram corpos misturados, nas quais haviam muitos membros podres. Encontramos Paulo contando aos Filipenses uma parte árdua de sua experiência, “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3.18,19). Haviam muitos salvos naqueles dias? Deixo que qualquer leitor honesto da Bíblia dê uma resposta a essa questão. Não pode haver dúvida de qual deve ser a resposta.

Eu peço a qualquer leitor de mente honesta e sem preconceitos desse volume para pesar bem as lições da Bíblia que eu tenho simplesmente apresentado. Certamente elas são importantes e solenes, e merecem séria atenção.

Não deixe que ninguém se esquive da força delas dizendo que a Bíblia somente conta a história dos judeus. Não pense para confortar a si mesmo dizendo que “talvez os judeus foram mais ímpios do que outras nações, e muitas pessoas provavelmente foram salvas nas outras nações, apesar de poucos serem salvos entre os judeus”. Você esquece que esse argumento depõe contra você. Você esquece que os judeus tinham luz e privilégios que os gentios não tinham, e com todos os seus pecados e faltas, foram provavelmente a mais santa, e a mais ética nação sobre a terra. Com relação ao estado moral das pessoas entre os Assírios, Egípcios, Gregos e Romanos, é terrível pensar como deve ter sido. Mas devemos estar certos de que, se haviam muitos pecadores entre os judeus, o número era bem maior entre os gentios. Se poucos foram salvos no madeiro verde, ai de mim, quão poucos devem ter sidos salvos no seco?[9]

A suma desse assunto é: a Bíblia e os homens do mundo falam de maneira bem diferente sobre o número de salvos. De acordo com a Bíblia, poucos serão salvos: de acordo com os homens do mundo, muitos. De acordo com os homens do mundo poucos estão indo para o inferno: de acordo com a Bíblia poucos estão indo para o céu. De acordo com os homens do mundo a salvação é um negócio fácil: de acordo com a Bíblia o caminho é apertado e a porta é estreita. De acordo com os homens do mundo poucos estarão buscando admissão para entrar no céu quando for tarde demais: de acordo com a Bíblia muitos estarão nessa triste condição, e lamentarão em vão “Senhor, Senhor, abre-nos”. A Bíblia nunca esteve errada antes. As mais inacreditáveis e improváveis profecias sobre Tiro, Egito, Babilônia, e Nínive, tem todas se cumprido à letra. E como em outros assuntos, assim será sobre o número de salvos. A Bíblia provará estar completamente certa e os homens do mundo completamente errados.



IV. Deixe-me mostrar, em último lugar, alguns fatos simples sobre o número de salvos.

Eu peço uma atenção especial para esta parte do assunto. Eu bem sei que as pessoas enganam-se a si mesmas dizendo que o mundo é bem melhor e mais desenvolvido que era 1800 anos atrás. Nós temos igrejas, escolas e livros. Nós temos civilização, liberdade e boas leis. Temos um padrão bem mais elevado de moralidade na sociedade como nunca houve. Temos a capacidade de obter bem-estar e entretenimentos que nossos antepassados desconheciam. Vapor, gás, eletricidade, química, tem realizado maravilhas para nós. Tudo isso é perfeitamente verdadeiro. Eu vejo isso, e sou grato. Mas tudo isso não diminui a importância da questão; Há poucos ou muitos de nós aptos a serem salvos?

Eu estou perfeitamente ciente que a importância dessa questão é tristemente negligenciada. Eu estou persuadido que as visões da maioria das pessoas sobre a quantidade de incredulidade e pecado no mundo, são completamente inadequadas e incorretas. Eu estou convencido que poucas pessoas, entre ministros ou cristãos individuais, percebem quão poucos há no caminho para serem salvos. Eu quero chamar a atenção para este assunto, apresentarei então uns poucos fatos simples sobre ele.

Mas onde iremos para constatarmos esses fatos? Eu poderia facilmente me voltar para milhões de gentios, que em várias partes do mundo estão cultuando o que eles não conhecem. Mas não farei assim. Eu poderia facilmente me voltar para milhões de Maometanos que honram mais o Alcorão do que a Bíblia, e o falso profeta de Meca mais do que a Cristo. Mas não farei assim. Eu poderia facilmente me voltar para milhões de Católicos Romanos que estão tornando a Palavra de Deus sem nenhum efeito pelas suas tradições. Mas não farei assim. Eu procurarei perto de casa. Eu trarei meus fatos da terra em que eu vivo, e então perguntarei a cada leitor honesto se não é estritamente verdadeiro que poucos são salvos.

Eu convido a qualquer leitor inteligente destas páginas a se imaginar em qualquer paróquia na Inglaterra ou Escócia Protestante neste dia. Escolha aquela do seu agrado, uma paróquia da cidade, ou uma paróquia do campo – uma paróquia grande ou uma pequena. Permita-nos tomar o Novo Testamento em nossas mãos. Permita-nos examinar o Cristianismo dos habitantes dessa paróquia, família por família, homem por homem. Permita-nos pôr de lado qualquer um que não possui as evidências do Novo Testamento de ser um cristão verdadeiro. Deixem-nos proceder honesta e imparcialmente na investigação, sem permitir que qualquer um seja considerado verdadeiro cristão se não estiver de acordo com o padrão de fé e prática do Novo Testamento. Deixem-nos contabilizar cada homem como uma alma salva em quem vemos alguma coisa de Cristo, alguma evidência de arrependimento verdadeiro – alguma evidência de fé salvadora em Jesus – alguma evidência de santidade real evangélica. Deixem-nos rejeitar cada homem em quem, na mais caridosa interpretação, não pudermos ver essas evidências, como um que foi “pesado na balança, e foi achado em falta”[10]. Deixem-nos aplicar este processo de triagem para qualquer paróquia neste terra, e vejamos qual será o resultado.



(a) Deixe-nos pôr de lado, primeiramente, aquelas pessoas na paróquia que estão vivendo em qualquer tipo de pecado aberto. Com esses eu tenho mente fornicadores, adúlteros, mentirosos, ladrões, bêbados, trapaceiros, mal dizentes e roubadores. Sobre esses eu penso que não pode haver diferença de opinião. A Bíblia diz claramente que “os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gálatas 5.21). Agora, essas pessoas serão salvas? A resposta é clara em minha mente: em sua condição atual elas não serão.

(b) Deixe-nos pôr de lado, a seguir, aquelas pessoas que são transgressoras do Sábado. Eu tenho em mente com essa expressão, quem raramente ou nunca vai a algum lugar de adoração, pensam terem eles a primazia – aqueles que não dão o Sábado para Deus, mas para si mesmos – aqueles que em nada pensam mas fazem seus próprios caminhos, e encontram seu próprio prazer nos domingos. Eles mostram claramente que não são apropriados para o céu! Os habitantes do céu seriam uma companhia desagradável para eles. Os serviços do céu seriam um cansaço para eles, e não uma alegria. Agora essas pessoas serão salvas? A resposta é clara em minha mente: em sua condição atual elas não serão.

(c) Deixe-nos pôr de lado, a seguir, todas aquelas pessoas que são cristãos negligentes e imprudentes. Eu tenho em mente com esta expressão quem atenta para muitas das ordenanças externas da religião, mas não mostra qualquer sinal de real interesse nas suas doutrinas e conteúdo. Eles pouco se importam se o ministro prega o evangelho ou não. Eles pouco se importam se ouvem um bom sermão ou não. Eles pouco se importariam se todas as Bíblias do mundo fossem queimadas. Eles pouco se importariam se um Ato do Parlamento fosse aprovado proibindo qualquer um de orar. Em resumo, religião não é a “boa parte”[11] para eles. Seu tesouro está na terra. Eles são justamente como Gálio, para quem pouco importava se as pessoas eram judias ou cristãs: a ele “nada destas coisas o incomodava” (Atos 18.17). Agora essas pessoas serão salvas? A resposta é clara em minha mente: em sua condição atual elas não serão.

(d) Deixe-nos pôr de lado, a seguir, todos aqueles que são formalistas e que se consideram justos. Eu tenho em mente com esta expressão quem valoriza a si mesmo na sua regularidade no uso das formalidades do Cristianismo, e depende direta ou indiretamente das suas próprias obras para sua aceitação com Deus. Eu quero dizer a todos que descansem suas almas em qualquer obra, mas não na obra de Cristo, ou em qualquer justiça mas não na justiça de Cristo. Tal como o apóstolo Paulo expressamente testificou, “nenhuma carne será justificada diante dEle pelas obras da lei”. “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (Romanos 3.20; 1 Coríntios 3.11).

E ousamos dizer, diante de semelhantes textos, que tais pessoas serão salvas? A resposta é simples em minha mente: em sua condição atual elas não serão.

(e) Deixe-nos pôr de lado, a seguir, todos aqueles que conhecem o Evangelho com suas mentes, mas não o obedecem com seus corações. Estas são aquelas infelizes pessoas que tem olhos para ver o caminho da vida, mas não tem vontade ou coragem para andar nele. Eles aprovam a sã doutrina. Eles não ouvirão pregações que não a contenham. Mas o medo do homem, ou os cuidados do mundo, ou o amor ao dinheiro, ou o temor de relações ofensivas, perpetuamente os puxam para trás. Eles não podem se revelar ousadamente, e tomar a cruz, e confessar a Cristo diante dos homens. Sobre esses a Bíblia também fala expressamente: “a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”; “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado”; “Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos” (Tiago 2.17; 4.17; Lucas 9.26). Deveríamos dizer que pessoas semelhantes a essas serão salvas? A resposta é clara em minha mente: em sua condição atual elas não serão.

(f) Deixe-nos pôr de lado, em último lugar, todos aqueles que são mestres hipócritas. Eu tenho em mente com esta expressão, todos aqueles para quem a religião consiste em falar e confessar em alta voz, e nada além mais. Esses são aqueles de quem o profeta Ezequiel falou, dizendo: “lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza”; “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras”; Eles “tem aparência de piedade, mas negam a eficácia dela” (Ezequiel 33.31; Tito 1.16; 2 Timóteo 3.5). Eles são santos na igreja, e santos ao falar em público. Mas eles não são santos em particular, nem em suas próprias casas, e o pior de tudo, eles não são santos no coração. Não pode haver discussão sobre tais pessoas. Deveríamos dizer que elas serão salvas? Só pode haver uma resposta: em sua condição atual elas não serão.

Agora, depois de colocarmos de lado esses grupos que eu tenho descrito, eu peço a qualquer leitor de pensamento sensato que me diga quantas pessoas em qualquer paróquia na Inglaterra serão deixadas para trás? Depois de examinarmos uma paróquia profunda e honestamente, quantos homens e mulheres permanecerão que estão a caminho de serem salvos? Quantos penitentes verdadeiros, quantos crentes reais em Cristo, quantas pessoas verdadeiramente santas serão encontradas? Proponho à consciência de cada leitor deste volume a dar uma resposta honesta, como diante que de Deus. Eu pergunto se, depois de examinarmos uma paróquia com a Bíblia da maneira descrita, você pode chegar à outra conclusão além desta – que poucas pessoas, infelizmente poucas pessoas estão a caminho de serem salvas?

É uma conclusão dolorosa de se chegar, mas eu não sei como pode ser evitada. É um pensamento terrível e tremendo, que mesmo havendo tantos clérigos na Inglaterra, e tantos Dissidentes[12], e tantos donos de assentos, e tantos locatários de assentos[13], e tantos ouvintes, e tantos comungados – e ainda assim, depois de tudo, tão poucos a caminho de serem salvos? Porém a única questão é: A conclusão não é verdadeira? É inútil fechar nossos olhos contra os fatos. É inútil pretender não ver o que está ao nosso redor. As declarações da Bíblia e os fatos do mundo em que vivemos nos levarão à mesma conclusão: muitos estão se perdendo, e poucos sendo salvos!

(a) Eu bem sei que muitos não acreditam no que estou dizendo, porque eles pensam que há uma imensa quantidade de arrependimento no leito de morte. Eles se enganam dizendo que multidões que não viveram vidas religiosas terão mortes religiosas. Eles tiram conforto do pensamento que um grande número de pessoas se voltam para Deus nas suas doenças terminais e são salvos na última hora. Eu quero apenas advertir a tais pessoas que toda a experiência dos ministros é totalmente contra essa teoria. Pessoas geralmente morrem do modo que viveram. Nunca é tarde demais para arrependimento verdadeiro: mas o arrependimento adiado para as últimas horas da vida raramente é verdadeiro. A vida de um homem é a mais segura evidência do seu estado espiritual, e se as vidas são as testemunhas, então poucos estão aptos para serem salvos.

(b) Eu bem sei que muitos não acreditam no que estou dizendo, porque acham que contradiz a misericórdia de Deus. Eles residem no amor aos pecadores que o Evangelho revela. Eles apontam as ofertas de absolvição e perdão que são abundantes na Bíblia. Eles nos perguntam se sustentaremos, em face de tudo isso, que somente poucas pessoas serão salvas. Eu respondo, eu irei tão longe quanto qualquer um em exaltar a misericórdia de Deus em Cristo, mas eu não posso fechar meus olhos contra o fato que não há proveito algum da misericórdia para o homem que deliberadamente a recusou. Eu vejo que não está faltando nada, da parte de Deus, para a salvação dos homens. Eu vejo lugar no céu para o principal dos pecadores. Eu vejo disposição em Cristo de receber o mais profano. Eu vejo poder no Espírito Santo para renovar o mais ímpio. Mas eu vejo por outro lado, uma incredulidade desanimadora no homem: ele não acreditará no que o Espírito diz na Bíblia. Eu vejo um orgulho desanimador no homem: ele não inclinará seu coração para receber o Evangelho como um pequenino. Eu vejo uma preguiça desanimadora no homem: ele não terá o trabalho de levantar-se e clamar por Deus. Eu vejo um materialismo desanimador no homem: ele não deixará sua posse das pobres coisas perecíveis dessa vida, para considerar a eternidade. Em resumo, eu vejo as palavras de nosso Senhor confirmadas continuamente: “E não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5.40), e então sou conduzido para a pesarosa conclusão que poucos estão aptos para serem salvos.

(c) Eu bem sei que, muitos não irão acreditar no que estou dizendo, porque eles se recusam a observar o mal que há no mundo. Eles vivem no centro de um pequeno círculo de boas pessoas: eles pouco sabem de qualquer coisa que acontece no mundo fora de seu círculo. Eles nos dizem que o mundo está melhorando rapidamente e indo para a perfeição. Eles contam nos dedos o número de bons ministros que tenham visto e ouvido no último ano. Eles nos chamam a atenção para o número de sociedades religiosas, e encontros religiosos, ao dinheiro que é ofertado, às Bíblias e panfletos que estão sendo constantemente distribuídos. Eles nos perguntam como ousamos dizer seriamente, diante de tudo isso, que poucos estão a caminho de serem salvos. Em resposta, eu irei somente advertir essas amáveis pessoas, que existem outras pessoas no mundo além do seu pequeno círculo, e outros homens e mulheres além daqueles poucos escolhidos da sua congregação. Eu lhes imploro que abram seus olhos, e vejam as coisas como elas realmente são. Eu lhes asseguro que há coisas acontecendo em nosso país que até o momento eles estão em feliz ignorância. Eu peço que examinem qualquer paróquia ou congregação na Inglaterra, com a Bíblia, antes que me condenem apressadamente. Eu lhes digo, se fizerem isso honestamente, que em breve descobrirão que eu não estou tão equivocado, quando eu digo que poucos estão aptos para serem salvos.

(d) Eu bem sei que muitos não acreditarão em mim, porque eles consideram tal doutrina muito exclusiva e intolerante. Eu nego completamente a acusação. Eu nego qualquer simpatia com aqueles cristãos que condenam a todos que não participam da sua comunhão, e parecem fechar a porta do céu contra todos aqueles que não veem tudo com seus olhos. Se Católicos Romanos, ou Episcopais, ou Clérigos Livres, ou Batistas, ou Irmãos de Plymouth, ou qualquer um faz algo desse tipo, eu o reconheço como um homem exclusivo. Eu não tenho nenhuma vontade de fechar o reino do céu contra quem quer que seja. Tudo que eu digo é, ninguém entrará nesse reino, exceto as convertidas, fiéis, e santas almas; e tudo que assumo a declarar é que a Bíblia e os fatos se combinam para provar que tais pessoas são poucas.

(e) Eu bem sei que muitos não acreditarão no que estou dizendo, porque eles consideram tal doutrina sombria, e sem caridade. É fácil fazer declarações vagas, e gerais deste tipo. Não é fácil mostrar que qualquer doutrina mereça ser chamada de “sombria e sem caridade” quando ela é escriturística e verdadeira. Há uma caridade espúria, eu temo, que tem aversão à todas as fortes declarações na religião, uma caridade que gostaria de não ter ninguém interferindo, uma caridade que gostaria de ter todos deixados em seus pecados, uma caridade que, sem evidência, toma por garantido que todos estão a caminho de serem salvos, uma caridade que nunca duvida que todas as pessoas estão indo para o céu, e parece negar a existência de um lugar como o inferno. Mas tal caridade não é a caridade do Novo Testamento, e não merece esse nome. Dê-me a caridade que prova tudo pelo teste da Bíblia, e não acredita nem espera em nada que não esteja sancionado pela Palavra. Dê- me a caridade que São Paulo descreve aos Coríntios (1 Coríntios 13.1ss); a caridade que não é cega, nem surda, nem estúpida, mas tem olhos para ver e bom senso para discernir entre aquele que teme a Deus e aquele que não O teme. Semelhante caridade não irá se regozijar em nada além “da verdade”, e confessará com tristeza que eu não estou dizendo nada além da verdade quando eu digo que poucos estão aptos para serem salvos.

(f) Eu bem sei que muitos não acreditarão em mim, porque eles acham presunçoso ter qualquer opinião sobre o número de salvos. Mas essas pessoas ousarão nos dizer que a Bíblia não falou claramente quanto ao caráter das almas salvas? Elas ousarão nos dizer que há outro padrão de verdade exceto a Bíblia? Seguramente não pode haver presunção em confirmar aquilo que está de acordo com a Bíblia. Eu lhes digo francamente que a acusação de presunção não bate a minha porta. Eu afirmo que é verdadeiramente presunçoso o homem que, quando a Bíblia tem dito algo clara e inequivocadamente, recusa-se a aceitá-la.

(g) Eu sei, por fim, que muitos não acreditarão em mim, por que eles consideram minha afirmação extravagante, e injustificada. Eles a encaram como uma porção de fanatismo, indigna da atenção de um homem racional. Eles enxergam os ministros que fazem essas declarações, como pessoas débeis mentais, e carentes de bom senso. Eu consigo suportar tais atribuições impassíveis. Eu somente peço aos que as fazem para me mostrarem alguma prova clara que estão certos e eu errado. Deixo que me mostrem, se puderem, qualquer um que provavelmente esteja indo para o céu que não tenha um coração renovado, que não seja um crente em Jesus Cristo, que não tenha uma mente espiritual e não seja um homem santo. Deixo que me mostrem, se puderem, que as pessoas com essa descrição são muitas, comparadas com as que não são. Deixem-nos, em uma palavra, indicar qualquer lugar na TERRA onde a grande maioria das pessoas não são profanas, e as verdadeiramente devotas não são um pequeno rebanho. Deixem que façam isto, e eu admitirei que eles estão certos em não acreditar no que eu disse. Até que façam isso, eu preciso manter a triste conclusão, que provavelmente poucas pessoas estão aptas para serem salvas.

E agora só nos resta fazer uma aplicação prática do tema deste artigo. Eu tenho exposto da forma mais clara possível o caráter das pessoas salvas. Eu tenho mostrado as ilusões dolorosas do mundo quanto ao número de salvos. Eu tenho apresentado a evidência da Bíblia neste assunto. Eu tenho extraído do mundo ao nosso redor fatos simples em confirmação às declarações que tenho feito. Que o Senhor permita que todas essas solenes verdades não tenham sido demonstradas em vão.

Estou inteiramente ciente que tenho dito muitas coisas neste texto que tende a causar ofensa. Eu sei disto. Deve ser assim. O ponto de que ele trata é bem mais sério e introspectivo por outro lado do que ofensivo para alguns. Mas eu tenho há bastante tempo profunda convicção que este assunto tem sido tristemente negligenciado, e que poucas coisas tão pequenas são realizadas quanto aos número comparativo de perdidos e salvos. Tudo que eu tenho escrito, eu tenho escrito porque eu acredito firmemente ser a verdade de Deus. Tudo que eu tenho dito, eu tenho dito, não como um inimigo, mas como um amante das almas. Você não contaria como um inimigo quem lhe dá um remédio amargo para salvar sua vida. Você não contaria como um inimigo quem lhe sacudisse rudemente durante seu sono quando sua casa está em chamas. Certamente você não me contaria como um inimigo porque eu digo fortes verdades para benefício de sua alma.

Eu apelo, como um amigo, para cada homem ou mulher em cujas mãos este material tenha chegado. Tenha paciência comigo, por mais um pouco, enquanto eu digo umas últimas poucas palavras para enfatizar o assunto inteiro na sua consciência.

(a) São poucos salvos? Então, você seria um dos poucos? Oh, que você visse que a salvação é algo essencial! Saúde, riquezas e títulos não são coisas essenciais. Um homem pode ganhar acesso ao céu sem tê-las. Mas o que seria de um homem que morre sem ser salvo? Oh, que você visse que precisa ter a salvação agora, nesta vida, e tomasse posse de sua própria alma! Oh, que você visse que “ser salvo” ou “não ser salvo” é a grande questão na religião! Alta Igreja ou Baixa Igreja, Clérigo ou Dissidente, essas questões são todas insignificantes em comparação. O que um homem precisa em ordem para chegar ao céu é um interesse pessoal real na salvação em Cristo. Certamente, se você não é salvo, seria melhor nunca ter nascido.

(b) São poucos salvos? Então, se você ainda não é um dos poucos, esforce-se para ser um sem demora. Eu não sei quem nem o quê você é, mas eu afirmo ousadamente, venha a Cristo e você será salvo. A porta que conduz à vida pode ser estreita, mas ela foi ampla o suficiente para admitir Manassés, e Saulo de Tarso, e porque não você? O caminho que conduz à vida pode ser apertado, mas ele está marcado pelos passos de milhares de pecadores como você. Todos tem encontrado nele um bom caminho. Todos têm perseverado, e chegado em segurança ao lar no final. Jesus Cristo convida a você. A promessa do Evangelho encoraja a você. Oh, esforce-se para entrar sem demora!

(c) São poucos salvos? Então, se você está duvidoso se é um dos poucos, esforce-se para ter certeza imediatamente, e não tenha mais dúvidas. Tente por todos os meios verificar seu próprio estado espiritual. Não fique contente com crenças e esperanças vagas. Não se baseie em sentimentos calorosos e desejos temporários além de Deus. Empenhe-se em fazer sua chamada e eleição certas. Oh, me permita dizer, que se você está contente em viver inseguro sobre salvação, você vive a vida mais insana do mundo! As chamas do inferno estão diante de você, e você está incerto se sua alma está segura. Este mundo em breve precisa ser deixado, e você está inseguro se tem uma mansão preparada para recebê-lo no mundo porvir. O julgamento em breve será executado, e você está inseguro se tem um Advogado para pleitear sua causa. A eternidade em breve começará, e você está incerto se está preparado para encontrar-se com Deus. Oh, sente-se neste dia, e estude o assunto da salvação! Não dê descanso a Deus até que a incerteza tenha desaparecido, e que você tenha conseguido uma esperança razoável de que você é salvo.

(d) São poucos os que são salvos? Então, se você é um dos poucos, seja grato. Escolhido e chamado por Deus, enquanto milhares em sua volta estão arruinados na incredulidade – vendo o reino de Deus, enquanto multidões a sua volta estão completamente cegas; salvo deste mundo mau, enquanto muitos estão dominados pelo seu amor e temor – instruído a reconhecer o pecado, e a Deus, e a Cristo, enquanto inúmeros, aparentemente tão bons quanto você, vivem em ignorância e trevas. Oh, você tem motivo para cada dia bendizer e louvar a Deus! De onde veio este senso de pecado, que você agora experimenta? De onde veio este amor a Cristo, este desejo de santidade, esta fome de justiça – este deleite na Palavra? Não foi a graça gratuita que fez isto, enquanto muitos ainda não sabem nada sobre isso, ou tem sido ceifados em seus pecados? Você realmente deve bendizer a Deus! Certamente George Whitefield disse bem, que no céu um dos hino entre os santos será:

“Porque a mim, Senhor?

Porque Tu escolhestes a mim?”

(e) São poucos os que são salvos? Então, se você é um dos poucos, não se admire se você se encontrar muitas vezes sozinho em sua posição. Eu me atrevo a acreditar que você está algumas vezes quase induzido a uma paralisação, pela corrupção e maldade que você vê no mundo ao redor. Você vê falsas doutrinas em abundância. Você vê incredulidade e impiedade de todo tipo. Você algumas vezes é tentado a dizer: “Posso eu realmente estar certo na minha religião? Pode ser realmente que todas as pessoas estão na errada?” Previna-se de dar ocasião a pensamentos como esses. Lembre-se, você está apenas tendo uma prova real da verdade das palavras de seu Mestre. Não pense que Seu propósitos estão sendo derrotado. Não pense que Sua obra não avançará pelo mundo. Ele ainda está preparando um povo para Seu louvor. Ele ainda está levantando testemunhas para Si, aqui e lá, e em todo o mundo. Os salvos ainda serão achados em “uma multidão, a qual ninguém pode contar” quando todos estiverem juntos reunidos finalmente (Apocalipse 7.9). A terra será cheia do conhecimento do Senhor. Todas as nações O servirão: todos os reis ainda se deleitarão em honrá-lO[14]. Mas a noite ainda não passou. O dia do domínio do Senhor ainda está por vir. Enquanto isso tudo está continuando como Ele previu 1800 anos atrás. Muitos estão se perdendo e poucos estão sendo salvos.

(f) São poucos salvos? Então, se você é um dos poucos, não se intimide em ter muita religiosidade. Assente em sua mente que você terá como objetivo o mais alto grau de santidade, discernimento espiritual e consagração a Deus, e que você não ficará contente com qualquer grau menor de santificação. Decida que, pela graça de Deus, você fará o Cristianismo bonito aos olhos do mundo. Lembre-se que as crianças do mundo têm poucos padrões de verdadeira religião diante delas. Esforce-se, até que seja real, em fazer com que aqueles poucos padrões recomendem o serviço de seu Mestre. Oh, que cada Cristão se lembrasse que está posto como um farol no meio de um mundo tenebroso, e trabalhasse então para viver de modo que cada parte de sua vida refletisse luz, e nenhum lado fosse turvo!

(g) São poucos salvos? Então, se você é um dos poucos, use cada oportunidade para fazer o bem às almas. Assente em sua mente que a grande maioria das pessoas ao seu redor estão em terrível perigo se perderem para sempre. Faça funcionar cada motor para fazer o Evangelho ter influência sobre elas. Sirva-se de cada mecanismo cristão para arrancar macas do incêndio. Doe generosamente para cada Sociedade cujo objetivo é difundir o Evangelho eterno. Exerça toda sua influência de todo coração e sem reservas na causa de fazer o bem às almas. Viva como alguém que acredita profundamente que o tempo é curto e a eternidade está próxima, o poder do mal e o pecado abundam – a escuridão é muito grande e a luz muito pequena; os ímpios são muitos e os devotos muito poucos – as coisas do mundo são meras sombras transitórias, e as do céu e inferno grandes realidades substanciais.

Ai de mim, aliás, para as vidas que muitos crentes vivem! Quão frios são muitos, e quão congelados – quão lentos para fazerem coisas decididas na religião, e quão medrosos para irem mais longe; quão retrógrados para tentarem coisas novas – quão prontos para desencorajarem um bom movimento; quão ingênuos em descobrirem razões porque é melhor permanecer sentado – quão relutantes ainda em admitir que “o tempo” para esforço ativo é chegado; quão peritos em encontrar faltas – quão preguiçosos em elaborar planos para encontrar males crescendo! Realmente um homem pode fantasiar algumas vezes, quando olha os caminhos de muitos que se dizem crentes, que todo o mundo estava indo para o céu, e que o inferno não era nada além de uma mentira.

Tomemos todo cuidado com este estado de espírito! Gostemos de crer ou não, o inferno está enchendo rápido – Cristo está diariamente estendendo sua mão para um povo desobediente – muitos, muitos estão no caminho da destruição, poucos, poucos estão no caminho da vida. Muitos, muitos estão aptos para se perderem. Poucos, poucos estão aptos para serem salvos.

Mais uma vez eu pergunto a cada leitor, como eu perguntei no início deste texto – Você é salvo? Se você ainda não é salvo, o desejo do meu coração e minha oração a Deus é, que você possa buscar a salvação sem demora. Se você já é salvo, meu desejo é que você possa viver como uma alma salva, e como alguém que sabe almas salvas são poucas.

ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.

Projeto Ryle – Anunciando a verdade Evangélica.


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Uma Palavra aos Pais

      Uma das mais infelizes e trágicas características de nossa civilização é a excessiva desobediência aos pais da parte dos filhos, quando menores, e a falta de reverência e respeito, quando grandes. Infelizmente, isto se evidencia de muitas maneiras inclusive em famílias cristãs.

Em nossas abundantes viagens nestes últimos trinta anos, fomos recebidos em muitos lares. A piedade e a beleza de alguns deles ainda permanecem em nossos corações como agradáveis e singelas recordações. Outros lares, porém, nos transmitiram as mais dolorosas impressões. Os filhos obstinados ou mimados não apenas trazem para si mesmos perpétua infelicidade, mas também causam desconforto para todos que se relacionam com eles e prenunciam coisas ruins para os dias vindouros.

Na maioria dos casos, os filhos são menos culpados do que seus pais. A falta de honra aos pais, onde quer que a achemos, deve-se, em grande medida, aos pais afastarem-se do padrão das Escrituras. Atualmente, o pai imagina que cumpre suas obrigações ao fornecer alimento e vestuário para os filhos e, ocasionalmente, ao agir como um tipo de policial de moralidade. Com muita freqüência, a mãe se contenta em desempenhar a função de uma criada doméstica, tornando-se escrava dos filhos, realizando várias tarefas que estes poderiam fazer, para deixá-los livres em atividades frívolas, ao invés de treiná-los a serem pessoas úteis. A conseqüência tem sido que o lar, o qual deveria ser, por causa de sua ordem, santidade e amor, uma miniatura do céu, degenerou-se em “um ponto de parada para o dia e um estacionamento para a noite”, conforme alguém sucintamente afirmou. Antes de esboçarmos os deveres dos pais em relação aos filhos, devemos ressaltar que eles não podem disciplinar adequadamente seus filhos, a menos que primeiramente tenham aprendido a governar a si mesmos. Como podem eles esperar que a obstinação de suas crianças sejam dominadas e controladas as manifestações de ira, se eles mesmos dão livre curso à seus próprios sentimentos. O caráter dos pais é amplamente reproduzido em seus descendentes. “Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem” (Gn 5.3). Os pais devem eles mesmos viver em submissão a Deus, se desejam obediência da parte de seus filhos. Este princípio é enfatizado muitas e muitas vezes nas Escrituras. “Tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo?” (Rm 2.21).

A respeito do pastor ou presbítero da igreja está escrito que ele tem de ser alguém “que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?)” (1 Tm 3.5). E, se um homem ou uma mulher não sabem como dominar seu próprio espírito (Pv 25.28), como poderão cuidar de seus filhos? Deus confiou aos pais um solene e valoroso privilégio. Não exageramos ao afirmar que em suas mãos estão depositadas a esperança e a bênção, ou a maldição e a ruína da próxima geração.

Suas famílias são os berçários da Igreja e do Estado, e, de acordo com o que agora cultivam, tais serão os frutos que colherão posteriormente.

Eles deveriam cumprir seu privilégio com bastante diligência e oração. Com certeza, Deus lhes pedirá contas referente à maneira de criarem seus filhos, que a Ele pertencem, sendo-lhes confiados para receberem cuidado e preservação.

A tarefa que Deus confiou aos pais não é fácil, em especial nestes dias excessivamente maus. Entretanto, poderão obter a graça de Deus, se a buscarem com sinceridade e confiança. As Escrituras nos fornecem as regras pelas quais devemos viver, as promessas das quais temos de nos apropriar e, precisamos acrescentar, as terríveis advertências, para que não realizemos essa tarefa de maneira leviana.

Instrua seu filho
Queremos mencionar aqui quatro dos principais deveres confiados aos pais.
Primeiro, instruir seus filhos. “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as in- culcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (Dt 6.6-7). Este dever é sobremodo importante para ser transferido aos outros; Deus exige dos pais, e não dos professores da Escola Dominical, a responsabilidade de educarem seus filhos. Tampouco essa tarefa deve ser realizada de maneira esporádica ou ocasional, mas precisa receber constante atenção. O glorioso caráter de Deus, as exigências de sua lei, a excessiva malignidade do homem, o maravilhoso dom de seu Filho e a terrível condenação que será a recompensa de todos aqueles que O desprezam e rejeitam — estas coisas precisam ser apresentadas constantemente aos filhos. “Eles são pequenos demais para entendê-las” é o argumento de Satanás, visando impedir os pais de cumprirem seu dever. “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Ef 6.4). Temos de observar que os “pais” são especificamente mencionados neste versículo, por duas razões: eles são os cabeças das famílias e o governo desta lhes foi confiado; os pais são inclinados a transferir sua responsabilidade às esposas. Essa instrução deve ser ministrada através da leitura da Bíblia e de explicar aos filhos as coisas adequadas à sua idade. Isto deveria ser acompanhado de ensinar-lhes um catecismo. Um constante falar aos mais novos não se mostra tão eficiente quanto a diversificação com perguntas e respostas. Se nossos filhos sabem que serão questionados após ou durante a leitura bíblica, ouvirão mais atentamente: fazer perguntas os ensina a pensarem por si mesmos. Este método também leva a memória a reter mais os ensinos, pois o responder perguntas definidas, fixa idéias específicas em nossas mentes. Observe quantas vezes Jesus fez perguntas aos seus discípulos.

Seja um bom exemplo
Segundo, boas instruções precisam ser acompanhadas de bons exemplos. O ensino proveniente apenas dos lábios provavelmente será ineficaz. Os filhos são espertíssimos em detectar inconsistências e rejeitar a hipocrisia. Neste aspecto, os pais precisam humilhar-se diante de Deus, buscando todos os dias a graça que desesperadamente necessitam e somente Ele pode dar. Que cuidado eles precisam ter, para que diante de suas crianças não digam e façam coisas que tendem a corromper suas mentes ou produzam más conseqüências, se elas as imitarem! Os pais necessitam estar constantemente alertas contra aquilo que pode torná-los desprezíveis aos olhos daqueles que deveriam respeitá-los e honrá-los. Não apenas devem instruir seus filhos no caminho da santidade, mas eles mesmos devem andar neste caminho, mostrando por sua prática e conduta quão agradável e proveitoso é ser orientado pela lei de Deus. No lar de pessoas crentes, o supremo alvo deve ser a piedade familiar — honrar a Deus em todas as ocasiões —, e as outras coisas, subordinadas a este alvo.
      Quanto à vida familiar, nem o esposo nem a esposa deve transferir para o outro toda a responsabilidade pelo aspecto espiritual da vida da família. A mãe com certeza tem a incumbência de suplementar os esforços do pai, pois os filhos desfrutam mais de sua companhia. Se existe a tendência de os pais serem muito rígidos e severos, as mães são propensas a serem muito brandas e clementes; portanto, têm de vigiar mais contra qualquer coisa que enfraquecerá a autoridade do pai. Quando este proibir alguma coisa, ela não deve consenti-la às crianças. É admirável observar que a exortação dada em Efésios 6.4 é precedida por “Enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18); enquanto a exortação correspondente em Colossenses 3.21 é precedida por “habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo” (v. 16), demonstrando que os pais não podem cumprir seus deveres, a menos que estejam cheios do Espírito Santo e da Palavra de Deus.

Discipline seu filho
Terceiro, a instrução e o exemplo precisam ser reforçados mediante a correção e a disciplina. Antes de tudo, isto implica no exercício de autoridade — a correta aplicação da lei divina. A respeito de Abraão, o pai dos fiéis, Deus afirmou: “Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do SENHOR e pratiquem a justiça e o juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gn 18.19).
Pais crentes, meditem nestas palavras com cuidado. Abraão fez mais do que simplesmente dar conselhos: ele ensinou com vigor a lei de Deus e ordenou sua casa. As regras com que ele administrou seu lar tinham o objetivo de seus filhos guardarem “o caminho do SENHOR” — aquilo que era correto aos olhos de Deus. Este dever foi cumprido pelo patriarca a fim de que a bênção de Deus estivesse sobre sua família. Nenhuma família pode crescer adequadamente sem leis familiares, que incluem recompensas e castigos. Isto é especialmente importante na primeira infância, quando ainda o caráter moral não está formado e as crianças não apreciam ou entendem seus motivos morais. As regras devem ser simples, claras, lógicas e flexíveis, tais como os Dez Mandamentos — poucas mas relevantes regras morais, ao invés de centenas de restrições insignificantes.
Uma das maneiras de provocarmos desnecessariamente nossos filhos à ira é atrapalhá-los com muitas restrições insignificantes e regras detalhadas e arbitrárias, procedentes de pais perfeccionistas. É de vital importância para o bom futuro dos filhos que estes sejam trazidos em submissão desde cedo. Uma criança malcriada representa um adulto ímpio — nossas prisões estão superlotadas com pessoas que tiveram a liberdade de seguirem seus próprios caminhos durante sua infância. A mais leve ofensa de uma criança quebrando as regras do lar não deve ficar sem a devida correção; pois, se ela achar clemência ao transgredir uma regra, esperará a mesma clemência em relação a outras ofensas, e sua desobediência se tornará mais freqüente, até que os pais não tenham mais controle, exceto através do exercício de força brutal. O ensino das Escrituras é claro quanto a este assunto. “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela” (Pv 22.15; ver também 23.13- 14). Por isso, Deus afirmou:“O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina” (Pv 13.24). E, ainda: “Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo” (Pv 19.18). Não permita que uma afeição insensata o impeça de cumprir seu dever. Com certeza, Deus ama seus filhos com um sentimento paternal mais profundo do que você ama seus filhos, mas Ele nos diz: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo” (Ap 3.19; cf. Hb 12.6). “A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe” (Pv 29.15). A severidade tem de ser utilizada nos primeiros anos de uma criança, antes que a idade e a obstinação endureçam-na contra o temor e a pungência da correção. Poupe a vara e você arruinará seu filho; não a utilize e terá de sofrer as conseqüências. É quase desnecessário salientar que as Escrituras citadas anteriormente não têm o propósito de incutir- nos a idéia de que nosso lar deve ser caracterizado por um reino de terror. Os filhos podem ser governados e disciplinados de tal maneira, que não percam o respeito e as afeições por seus pais. Estejamos atentos para não estragarmos seus temperamentos, por fazermos exigências ilógicas, e provocá-los à ira, por castigá-los expressando nossa própria ira. O pai têm de punir um filho desobediente não porque ficou bravo, e sim porque é correto fazer isso — Deus o exige, bem como a rebeldia de seu filho.
Nunca faça uma ameaça, se não tenciona cumpri-la. Lembre que estar bem informado é bom para seu filho, mas ser bem controlado é ainda melhor. Esteja atento às inconscientes influências que cercam seu filho. Estude meios para tornar seu lar atraente, não pela utilização de recursos carnais e mundanos, mas por servir-se de ideais nobres, por incutir- lhes um espírito de altruísmo e desenvolver uma comunhão agradável e feliz. Não permita que seus filhos se associem a más companhias. Verifique cautelosamente as revistas e livros que entram em seu lar, observe os amigos que ocasionalmente seus filhos convidam para vir ao lar e as amizades que eles estabelecem. Antes mesmo de o reconhecerem, muitos pais permitem seus filhos relacionarem-se com pessoas que arruinam a autoridade paternal, transtornam seus ideais e semeiam frivolidade e pecado.

Ore por seus filhos
Quarto, o último e mais importante dever, no que se refere ao bem-estar físico e espiritual de seus filhos, é a intensa súplica a Deus em favor deles. Sem isto, todos os outros deveres são ineficazes. Os meios são inúteis, exceto quando o Senhor os abençoa. O trono da graça tem de ser fervorosamente buscado, para que sejam coroados de sucesso os nossos esforços em educar os filhos para a glória de Deus. É verdade que precisa haver uma humilde submissão à soberana vontade de Deus, um prostrar-se ante a verdade da eleição. Por outro lado, o privilégio da fé consiste em apropriar-se das promessas divinas e em recordar que a ardente e eficaz oração de um justo produz muitos resultados.
A Bíblia nos diz que o piedoso Jó “chamava... a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles” (Jó 1.5). Uma atmosfera de oração deve permear o lar e ser respirada por todos os que dele compartilham.

Por: Arthur W. Pink

O que motiva você a contribuir com a obra de Deus?

      A contribuição com a obra de Deus e a oferta aos pobres e necessitados é uma prática bíblica inegável. Infelizmente, vivemos hoje dois extremos nesta questão: aqueles que, alimentados pela ganância, ultrapassam os limites das Escrituras e astuciosamente arrancam o último vintém dos incautos, e aqueles que amam mais o dinheiro do que a Deus e fecham o coração e o bolso, negligenciando a graça da contribuição, sendo infiéis na mordomia dos bens.

A devolução dos dízimos é um claro ensino bíblico, presente antes da lei, durante a lei e depois da lei. A contribuição pessoal, voluntária, generosa, sistemática e alegre está presente tanto no Antigo como no Novo Testamento. O rei Davi oferece-nos alguns princípios importantes sobre a contribuição que glorifica a Deus, quando se preparava para construir o templo de Jerusalém. Esses princípios podem ser vistos no texto de 1Crônicas 29.1-22.

Em primeiro lugar, devemos contribuir porque a obra de Deus a ser realizada é muito grande (1Cr 29.1). Davi disse: “… esta obra é grande; porque o palácio não é para homens, mas para o Senhor Deus”. Davi estava construindo o templo e o palácio. Queria fazer o melhor e dar o melhor para Deus. Tudo o que fazia não era pensando nos homens, mas em Deus. Igualmente, a igreja está realizando uma grande obra. Há templos a serem construídos, igrejas a serem plantadas, pessoas necessitadas a serem assistidas, missionários a serem enviados, muito terreno a ser conquistado aqui e além fronteira.

Em segundo lugar, devemos contribuir com liberalidade porque Deus merece o melhor (1Cr 29.2). Davi, com todas as suas forças preparou para a Casa de Deus, em abundância, aquilo que existia de melhor. Deus é o dono de tudo. Tudo o que temos vem das suas mãos. Tudo o que damos, também procede de suas dadivosas mãos. Ele é Deus de primícias. Merece o melhor e não as sobras. As coisas de Deus precisam ser feitas com excelência. Não podemos ofertar a Deus com usura, pois ele não nos dá suas bênçãos por medida. Ao ofertar ao Senhor, devemos colocar aí o nosso coração e a nossa força.

Em terceiro lugar, devemos contribuir movidos por grande amor a Deus e à sua obra (1Cr 29.3). Davi não apenas recolheu ofertas dos outros, mas ele pessoalmente deu para a Casa do seu Deus o ouro e a prata particulares que tinha. E fez isso, porque amava a Casa do seu Deus. Quem ama dá. Quem ama é pródigo em ofertar. Nosso amor por Deus não passa de palavrório vazio se não ofertamos ao Senhor com generosidade. Nossa contribuição, ainda que sacrificial, não tem valor diante de Deus, se não é motivada pelo nosso amor ao Senhor e a sua obra. O apóstolo Paulo diz que ainda que entreguemos todos os nossos bens para os pobres, se não tivermos amor, nada disso aproveitará.

Em quarto lugar, devemos contribuir espontaneamente motivados pela alegria de Deus (1Cr 29.5-9). A contribuição é uma graça que Deus nos dá. É um privilégio ser cooperador com Deus na sua obra. O ato de contribuir é uma expressão de culto e adoração. Deus ama a quem dá com alegria. A voluntariedade e a alegria são ingredientes indispensáveis no ato de contribuir. Davi perguntou ao povo: “Quem está disposto, hoje, a trazer ofertas liberalmente ao Senhor? O povo se alegrou com tudo o que se fez voluntariamente; porque de coração íntegro deram eles liberalmente ao Senhor; também o rei Davi se alegrou com grande júbilo” (1Cr 19.5,9). Devemos vir ao gazofilácio para ofertar, exultando de alegria e não com tristeza.

Em quinto lugar, devemos contribuir conscientes de que Deus é dono de tudo e que tudo deve ser feito para a sua glória (1Cr 29.10-22). O resultado da alegre, generosa e abundante oferta do rei e do povo foi a manifestação da glória de Deus. Davi louvou a Deus pela sua glória, poder e riqueza, reconhecendo que as ofertas que deram tinham vindo do próprio Deus. O povo adorou a Deus e houve grande regozijo. O maior propósito da nossa contribuição deve ser a manifestação da glória de Deus. John Piper tem razão em dizer que o Senhor é mais glorificado em nós quanto mais nos deleitamos nele. Que tudo o que somos e temos esteja a serviço de Deus e seja um tributo de glória a Deus. Que os bens que Deus nos deu estejam no altar de Deus, a serviço a Deus.

Rev. Hernandes Dias Lopes
Fonte: http://hernandesdiaslopes.com.br