sábado, 10 de agosto de 2013

A IGREJA COMO PREGADORA DO ARREPENDIMENTO

O Glorioso Corpo de Cristo
por
R. B. Kuiper

Capítulo 27 - A IGREJA COMO PREGADORA DO ARREPENDIMENTO

      A tarefa que Deus designou à igreja é a de proclamar a Palavra de Deus. Um aspecto importante desta é a pregação do arrependimento.
O ARREPENDIMENTO E A IRA DE DEUS
É altamente significativo que os pregadores inspirados que a Bíblia nos apresenta puseram uma ênfase muito especial no arrependimento. O arrependimento foi a primeira coisa que demandaram de seus ouvintes.
Noé, "pregoeiro da justiça" (2 Pedro 2:5), demandou de seus compatriotas o arrependimento de suas más ações. Em todos os escritos dos profetas maiores e menores não há uma nota mais proeminente que a do arrependimento. A tempo e fora de tempo suplicavam ao extraviado povo de Deus que se arrependessem. Ezequiel, por exemplo, clamou: "Assim diz o Senhor Deus: Convertei-vos, e deixai os vossos ídolos; e desviai os vossos rostos de todas as vossas abominações" (Ezequiel 14:6), e, "Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que morrereis, ó casa de Israel?" (Ezequiel 33:11).
João o Batista repreendeu aos fariseus e aos saduceus: "Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento" (Mateus 3:7,8). A Escritura nos diz que ele pregava "o batismo de arrependimento" (Marcos 1:4). A primeiríssima demanda do Filho de Deus durante Seu ministério público foi a do arrependimento. Significativamente diz a Escritura acerca dEle: "Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus" (Mateus 4:17). Da parte aplicatória de seu sermão em Pentecostes, Pedro exortou à multidão dizendo: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados" (Atos 2:38). O apóstolo Paulo disse aos atenienses que Deus "manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam; porquanto determinou um dia em que com justiça há de julgar o mundo" (Atos 17:30,31), e fez um sumário de sua carreira como pregador afirmando que ele havia anunciado "primeiramente aos que estão em Damasco, e depois em Jerusalém, e por toda a terra da Judéia e também aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus, praticando obras dignas de arrependimento" (Atos 26:20). As cartas que o Cristo glorificado ordenou ao apóstolo João que escrevesse às sete igrejas da Ásia Menor abundam em ordens para se arrepender (Apocalipse 2:5, 16;3:19).
É difícil negar que o chamado ao arrependimento não ressoa dos púlpitos de nossos dias com tanto vigor como o faz a Escritura. Dos púlpitos modernistas rara vez se ouve dito chamado e ainda daqueles relativamente conservadores, agora se prega sobre o arrependimento com surpreendente debilidade.
Qual é a razão desta notável diferença entre a pregação tal como está na Bíblia e a pregação de hoje? Uma explicação, e por certo correta, é que a Palavra de Deus considera o pecado com muita mais seriedade que o que é considerado no púlpito de hoje em dia. Porém, subjacente a este fato, há outro. A razão pela qual a Escritura considera o pecado imensamente mais sério que o que se considera na pregação de hoje, é porque a Escritura considera a Deus infinitamente mais sério. O que faz que todo pecado seja sumamente pecaminoso é que o mesmo constitui uma afronta ao completamente soberano, perfeitamente santo e absolutamente justo Deus. Por essa razão, o pecado faz com que a ira de Deus se ascenda em todo o seu furor, e o cair do pecador nas mãos do Deus vivo, que é um fogo consumidor, é coisa horrenda (Hebreus 10:31; 12:29). E se não se arrepende, lhe espera, sem possibilidade de escape, "uma horrenda expectação de juízo" (Hebreus 10:27), que lhe há de devorar perpetuamente. O pecador não arrependido está a caminho do lugar onde, de acordo com as palavras de Jesus, "haverá pranto e ranger de dentes" (Mateus 13:42), e "onde o seu bicho não morre, nem o fogo nunca se apaga" (Marcos 9:44,46:48).
O chamamento ao arrependimento na Escritura tem sua raiz no conceito dela acerca do caráter de Deus como o Único soberano que não tolerará resistência alguma a Sua vontade, como o Justo que demanda que o pecado seja castigado com a morte e morte eterna. Somente quando a igreja tiver voltado à teologia da Bíblia, atribuirá uma vez mais ao chamamento ao arrependimento o lugar proeminente que Deus lhe deu em Sua Palavra.
O ARREPENDIMENTO E A LEI DE DEUS
O arrependimento é um dom de Deus. Se o Espírito de Deus não operar no coração do pecador, este não poderá se arrepender. Contudo, não devemos descuidar da verdade que, ao realizar esta obra e impartir este dom, o Espírito Santo costuma usar meios. O meio é a pregação da Palavra de Deus pela igreja, e mais propriamente pela pregação da lei de Deus. Porque, como diz a Escritura, "por meio da lei vem o conhecimento do pecado" (Romanos 3:20).
Tem-se comparado a lei de Deus com um espelho. Se o espelho não está torcido, manchado ou danificado, apresentará uma imagem exata do que está diante dele. A lei de Deus, como um espelho perfeito, mostra ao pecador com todas suas manchas e imundícias. Ao contemplar-se neste espelho o pecador, se não for cego, não só sofrerá um tremendo golpe, mas também se sentirá tremendamente desprezível, com aversão de si mesmo. Este sentimento é sinal de arrependimento.
Pode-se também comparar a lei de Deus com uma montanha. É uma montanha que o pecador está no sagrado dever de escalar, porém não pode. A lei exige que o pecador ame a Deus com todo seu coração, com toda sua alma, com toda sua mente e com todas as suas forças (Mateus 12:30). Porém, quem é capaz de fazê-lo? A lei de Deus demanda que o pecador seja perfeito como Deus é perfeito (Mateus 5:48), porém alcançar tal demanda está mui longe do que é a capacidade do pecador. Enfrentando esta tarefa totalmente impossível, o pecador se sente incapaz e o que é pior, sem esperança. Podemos ouvi-lo gritar: "Ai de mim! que estou morto". Este é um grito de arrependimento.
Pode-se comparar também a lei de Deus com um carrasco. Esta comparação, por forte que pareça, é extremamente fraca. A lei não somente se assemelha a um carrasco, mas é um carrasco, e é carrasco por excelência. Não somente ameaça com a morte ao transgressor (pecador) dizendo-lhe: "se tu me violas, te destruirei", mas também cumpre sua ameaça. Quando Deus disse que o "salário do pecado é a morte" (Romanos 6:23), Deus não pôs uma ordem arbitrária, mas declarou uma lei inescapável. Que aquele que viola a lei de Deus deve morrer, é em si uma lei de Deus, porque pecar é apartar-se de Deus e apartar-se de Deus é morrer. Assim, a lei de Deus não somente pronuncia a sentença de morte sobre o pecador, mas também põe essa sentença em efeito. O apóstolo Paulo teve isto em mente quando disse: "E o mandamento que era para vida, esse achei que me era para morte" (Romanos 7:10). A lei de Deus mata ao pecador. Enfrantando tal carcereiro, que pode fazer o pecador, senão clamar a Deus por Sua misericórdia? Isto é arrependimento.
O ARREPENDIMENTO E A GRAÇA DE DEUS
Se a igreja pregasse somente a lei de Deus, levaria os homens ao desespero. Porém, a igreja está sob a ordem de pregar de forma mui especial as boas novas da graça de Deus. Portanto, tendo pregado a lei que conduz ao arrependimento, deve pregar também o arrependimento que conduz à salvação.
O apóstolo Paulo nos diz que "a lei se tornou nosso aio, para nos conduzir a Cristo" (Gálatas 3:24). Ele estava pensando na revelação progressiva de Deus à igreja das duas dispensações. Com a ênfase sobre a lei no Antigo Testamento, Deus propôs ensinar a Seu povo que eles eram pecadores incapazes de salvar-se a si mesmos e assim, prepará-los para a recepção da salvação pela fé em Cristo Jesus; isto, por certo, é ensinado em toda a Escritura, porém de uma maneira especial é revelado no Novo Testamento. Contudo, para o pecador de forma individual, a lei também é o aio que lhe leva a Cristo. Nas palavras de Lutero: "A lei revela e enfatiza o pecado, humilhando o orgulhoso para este desejar a ajuda de Cristo". Assim, a lei nos prepara para a graça.
O chamado ao arrependimento é certamente uma ordem divina, porém, também é um convite divino, cordial e mui urgente. Jurando por si mesmo, Deus declara: "Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva"; e logo suplica aos pecadores: "Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que morrereis...?" (Ezequiel 33:11). E o apóstolo Pedro nos assegura que Deus não quer "que ninguém se pecar, senão que todos venham a arrepender-se" (2 Pedro 3:9). Ao comentar sobre esta compreensiva e importante declaração, Calvino disse: "Tão maravilhoso é Seu amor para com a humanidade que quer que todos sejam salvos, e de Si mesmo está pronto a impartir salvação aos perdidos. Porém, deve-se notar a ordem: que Deus está pronto a receber a todos para arrependimento de tal modo que ninguém pereça; porque, nestas palavras estão assinalados o caminho e o modo de se obter a salvação. Cada um de nós, portanto, que deseja obter a salvação, deve saber que o arrependimento é o caminho para entrar nela..." O arrependimento é inegavelmente o requisito para a salvação; porém, Deus não só convida a todos os arrependidos à salvação, mas também convida amorosamente a todos os pecadores ao arrependimento.
Quando a pregação da lei é aplicada pelo Espírito Santo ao coração do pecador, este é trazido à convicção do pecado. Quando o Espírito de Deus procede à aplicar a pregação do evangelho em seu coração, o pecador convicto se lança sobre a misericórdia de Deus. Como o publicano da parábola, o pecador se golpeia e exclama: "Ó Deus, sê propício a mim, pecador", e o Deus de toda graça o justifica (Lucas 18:13,14). Com o filho pródigo, noutra parábola, o pecador volta ao Pai com esta confissão: "Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho", e ainda antes de terminar sua confissão, o Pai foi movido por misericórdia, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou (Lucas 15:20,21). E o Salvador, de acordo com Sua promessa: "O que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora" (João 6:37), chama ao arrependido para vir a Ele.
O verdadeiro arrependimento nunca chega tarde demais. Dois malfeitores foram crucificados com o nosso Senhor. Na hora final de sua vida criminosa, um deles se arrependeu. Confessou que estavam fazendo justiça com ele ao ser crucificado, e voltando-se ao Salvador, orou: "Lembra-te de mim quando entrares no teu reino". Jesus lhe respondeu: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas 23:41-43). E logo as portas do paraíso se abriram e, tomados pela mão, Seu Senhor e ele entraram. Aquela manhã ele foi desprezado pelos homens; pela tarde, os anjos de Deus lhe deram boas vindas. Aquela manha ele era completamente vil; pela tarde, lavado com o sangue carmesim, foi feito branco como a neve. Aquela manha ele foi despido; pela tarde, foi vestido com roupas brancas. Aquela manhã foi um criminoso; pela tarde, foi contado entre as multidões de homens justos e aperfeiçoados. Aquela manhã estava parado nas próprias portas do inferno; pela tarde, encontrou-se na Jerusalém celestial. Aquela manhã estava nas garras do diabo; pela tarde já estava seguro nos braços do Senhor. Aquela manhã foi dependura numa maldita cruz; pela tarde, já estava sentado com o Filho de Deus em Seu trono.
Maravilhosa graça de Deus!
Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: http://www.monergismo.com/livros2/kuiper/igreja/027.htm

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