sexta-feira, 30 de março de 2012

O CARÁTER DOS HOMENS EM DIAS TRABALHOSOS

SABE, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. (II Timóteo 3:1-5)

"Sobrevirão tempos trabalhosos", é o que nos exorta o Espírito Santo a partir da vida e ministério do apóstolo Paulo. Para compreender com clareza àquilo que tão enfaticamente é dito, vamos recorrer ao texto grego: τουτο δε γινωσκε οτι εν εσχαταις ημεραις ενστησονται καιροι χαλεποι

Transliterando-se o texto acima, obtemos: touto de ginōske oti en eschatais ēmerais enstēsontai kairoi chalepoi. A expressão "tempos trabalhosos" é uma das possíveis traduções de "kairoi chalepoi". Kairos é um termo bastante conhecido, significa "tempo, oportunidade, temporada". Já o termo "chalepos" significa "doloroso, penoso, atroz, grave, pesado, opressivo, repugnante, horrível"; "perigoso, arriscado" e "difícil". Assim, a expressão em português nas nossas Bíblias indica uma época perigosa, época complicada e de sofrimento, uma época que traz repugna, ojeriza.

Porque essa época seria tão ruim, tão horrível? Paulo mesmo se encarrega de explicar. Por causa da malignidade dos homens (sui generis - homens e mulheres) que viveriam nesta época. Pessoas que teriam a vida centradas em si mesmas, cuja satisfação do "eu" seria a única força motriz de suas almas; pessoas que contam somente no rol físico de membros. Gente que se introduziria na Igreja cheios de paixões e vontades carnais, mas que nunca chegariam ao conhecimento da verdade, ainda que aprendam sempre. Homens que resistem à verdade, sendo corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé.

Mais do que um assunto para a escatologia (eschatos - últimos dias), esse é um assunto para os nossos dias. Isso pode se notar facilmente. A despeito da Igreja ser Ekklesia, "os chamados para fora do mundo", cada vez mais surge um grupo de "autodenominados crentes" que buscam viver para si mesmos, sem nunca desfrutarem nem a Graça nem a plenitude da Comunhão do Espírito no Corpo. Pessoas que estão na Igreja por mera conveniência ou por amizades com crentes, mas que jamais permitem que o Espírito Santo trate do seu caráter deformado pelo pecado. Pessoas que não se pode contar para nada; muito pelo contrário: é até perigoso contar com elas, porque além de você ficar na mão, corre o risco de se tornarem adversários caluniadores.

De onde vêm este grupo de homens dos últimos dias? De dois lugares principais. O primeiro é o mundo. Com a banalização do Evangelho e a "reinterpretação conveniente" da moral e ética cristã, hoje qualquer pessoa torna-se membro de uma Igreja evangélica sem ter experimentado a conversão e o novo nascimento. Ser evangélico antigamente era ser perseguido, ser "persona non grata" na sociedade. Éramos conhecidos como "os Bíblias". Hoje, é ser popular. O escândalo da cruz foi astuciosamente eliminado, de forma a possibilitar uma maior aceitação da "mensagem franca e positiva" por todas as classes sociais. O choque com a verdade de que se é um miserável e perdido pecador, condenado ao inferno; o arrependimento e a confissão de pecados e a identificação com o sacrifício de Cristo foram substituídos pela promessa de bens materiais, de honra e de um deus-alfred, mordomo e cúmplice dos pecados humanos. Um deus que entende os pecados e a ingratidão humana, como já ouvi falar.

O segundo lugar é a própria Igreja. Alguns crentes "apostatam da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios", possuindo um fungo do inferno dentro do ouvido que lhes causa uma comichão sem fim, que só é aliviada com falsos ensinos por falsos mestres. "Amam o mundo e o que no mundo há", e no entanto continuam na Igreja! Não vivem plenamente nem o mundo nem a Igreja porque há divisão em seu interior. No lugar de se "encherem com o Espírito", vão tomando a cada momento alguns pequenos cálices do vinho sedutor do mundo até estarem completamente embriagados pelo pecado.

Ambos os grupos se enquadram no texto paulino. Ambos "aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade". Ambos já deveriam serem mestres há muito tempo, por todo o aprendizado que receberam; ao contrário, dizendo-se crentes eles agem como homens naturais, na melhor das hipóteses, como carnais. Sensuais, que não têm o Espírito.

São amantes de si mesmos (gr. philautos) e avarentos (gr. philarguros): não conseguem nem se doarem, nem doarem o que possuem. Acabam sempre priorizando seus próprios interesses, caprichos, carnalidades em detrimento do Reino de Deus. Usam a Deus, a Igreja e o pastor para satisfazerem suas necessidades; mas quando eles podem ser úteis, nem sequer aparecem. Quando obreiros, são conhecidos como irmãos "abraço companheiro", ou seja, "aqueles que vão pelas Igrejas"; dependendo da situação (se o time de futebol para o qual ele torce está jogando, por exemplo) ele torna-se "crente cristo em casa". Quando se faz campanha financeira para comprar alguma coisa que será de benefício para a própria Igreja, passam a serem conhecidos como "crentes mão de samambaia" - não conte com ele nem para pagar a luz da Igreja que ele usa! Quando doa alguma coisa, ou é algo que não tem a menor condição de uso, ou é de qualidade duvidosa.

São presunçosos (gr. alazon) e soberbos (gr. huperephonos). Presunçoso é aquele que está cheio de vento, contador de vantagens, confiando excessivamente em si mesmo. O presunçoso acha que nunca precisa de ninguém, enquanto o soberbo tem certeza disso. O presunçoso acha que pode pastorear a si mesmo, afinal já sabe muito; o soberbo pastoreia-se a si mesmo, é auto-suficente, ele se basta. O presunçoso acha-se muito capaz, acha que sabe tudo; mas na hora que a "coisa aperta" ele corre pedindo por socorro. O soberbo jamais pede socorro a ninguém, afinal ele sabe tudo.

Já dizia Blaise Pascal, em sua obra "Pensamentos": "Somos tão presunçosos que desejaríamos ser conhecidos de toda a terra, e até das pessoas que vierem quando nela não estivermos mais; e somos tão vãos que a estima de cinco ou seis pessoas que nos cercam nos diverte e nos contenta".

São blasfemos (gr. blasphemos) e desobedientes aos pais (gr. goneus apeithes). No grego, blasfemos eram aqueles que amavam o insulto, quer contra o próximo, quer contra a Deus. Insultam por palavras, gestos e atos; não receiam blasfemar nem das dignidades. Quando confrontados em seu pecado, suas bocas mais parecem o escapamento do inferno, de tantas afrontas e insultos que emanam delas. São desobedientes (apeithes: a + pheites, Tt 3.3), ou seja, "sem persuasão", não há como persuadí-los dos seus atos e de sua vida sem Deus, porque não aceitam nenhum tipo de argumento que os contradiga.

São ingratos (gr. acharistos) e profanos (gr. anosios). Você pode honrá-los o quanto quiser: pode consagrá-los ou ordená-los a diáconos, presbíteros, evangelistas, pastores; líderes de louvor; pode dar-lhes a honra de ministrarem aulas na Escola Bíblica; podem liderar departamentos e ministérios. Podem dirigir cultos públicos. Porém, apesar de tudo de bom que lhe é feito, são incapazes de demonstrar gratidão. Você pode se doar a eles; não há nenhum tipo de reconhecimento. São pessoas desprovidas da graça de Deus. Não é à-toa que são profanos: não há pureza, não há piedade, não há santidade em suas vidas. Não são pessoas consagradas a Deus. São ímpios transvestidos de crentes, malignos, cheios de toda sorte de imundícias.

São sem afeto natural (gr. astorgos) e irreconciliáveis (gr. aspondos). São pessoas desprovidas de amor familiar (a+storge). De fato, a família é caótica, ninguém se entende. O desamor impera dentro de casa. Vivem apenas sob o mesmo teto, por questão de comodidade e aparências. Obviamente, são também irreconciliáveis, ou seja, incapazes de alcançarem um consenso, ou a uma conciliação. Incapazes da trégua (sponde). São pessoas que não conseguem se entender com ninguém. Amam o litígio, a contenda, o conflito, a guerra. Não pedem perdão e não perdoam.

São caluniadores (gr. diabolos) e incontinentes (gr. akrates). O caráter maligno destas pessoas logo manifesta sua origem - o próprio diabo. O diabo é o patrono de todos os caluniadores e de todos os caluniadores ele é o chefe. Inventam toda a sorte de mentiras contra os outros e, de tanto mentirem e viverem na mentira, acabam tomando-a por verdade. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, já dizia que "uma mentira cem vezes repetida torna-se uma verdade". Além disso, não possuem domínio próprio, agindo de acordo com os impulsos carnais que pululam em suas veias. Carnais!

São cruéis (gr. anemeros) e sem amor para com os bons (gr. aphilagathos). O termo anemeros é usado para denotar bestas selvagens. Assim, denota selvageria. São grossos, ignorantes. Todos os cães lamentam quando ferem seus donos (o meu chega a fica amuado, no canto, enquanto não faz as pazes comigo), porém estas pessoas não sentem absolutamente nada por ferirem o próximo. Há diversos exemplos de pessoas assim: pedófilos, assassinos, estupradores... dentro da Igreja! Fica bastante claro que os tais não possuem nenhum tipo de amor nem pela virtude, nem pelos virtuosos. A idéia aqui é uma inversão de valores: o que era bom, passou a ser odioso; o que era odioso, passou a ser bom. Um exemplo prático é o costume de se interpretar como "normal" o jovem manter relações sexuais fora do casamento, onde errado passou a ser não fazer sexo sendo solteiro. São aqueles mencionados por Isaías: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" (Is 5.20)

São traidores (gr. prodotes) e obstinados (gr. propetes). Prodotes denota alguém que é falso no cumprimento de seus deveres ou alguém que é desleal com a confiança depositada por outro. Hoje, a exemplo de Demas, muitos obreiros abandonam a Obra por amarem o mundo, traindo a confiança que lhes foi depositada. É interessante que Paulo, ao escrever sobre as qualificações dos diáconos, diz que "os que servirem bem como diáconos, adquirirão para si uma boa posição e muita confiança na fé que há em Cristo Jesus" (I Tm 3.13). Se os que servem bem alcançam boa posição e muita confiança, os que servem desleixadamente, relaxadamente, quando querem fazê-lo, além de não alcançarem posição, não gozam de confiança. De fato, quando contamos com alguém para alguma coisa, por menor que seja, depositamos confiança nele. Se este alguém mostra-se desleixado com aquilo que lhe confiamos, somos por ele traídos e assim perdemos a confiança nele.

Já o termo propetes significa "descuidado", "negligente", "indiferente", "precipitado". No grego, denota alguém que cai da cama. É o cabeça-dura, teimoso. Alguém que age impetuosamente, sem considerar as outras pessoas ou as possíveis consequências de seus atos. Agem motivados por seus impulsos e paixões, atropelando tudo e todos, não escutando conselhos de ninguém. Depois que a coisa sai malfeita, aí o sujeito traz o problema para você resolver. Porém, o estrago já está feito.

São orgulhosos (gr. tuphoo) e mais amigos dos prazeres do que de Deus (gr. philedonos). Tuphoo indica alguém "envolvido com fumaça", "inchado com fumaça". Paulo diz que não se deve colocar o novo convertido no ministério, "para que não se ensoberbeça [encha com fumaça] e caia na condenação do diabo". São pessoas cheias de vento. Todas as suas realizações serão reduzidas a nada em pouco tempo! Já o termo philedonos significa aquele que ama os prazeres sensuais. São pessoas que vivem como se o sentido da vida fosse a busca pelo prazer individual e imediato. Esquecem-se que tudo não passa de vaidade!

Note o que Paulo conclui: Estes tem aparência de piedade, mas negam a eficácia dela. Eficácia é a tradução me português do termo grego dunamis, poder. Assim, tais pessoas negam o poder da piedade, ou seja, o poder sobrenatural, salvador e transformador, que a piedade cristã possui e que a distingue de "outras piedades". Sem transformação de vida, sem mudança de caráter, sem novo nascimento, sem renúncia ao eu e arrependimento, o que é o cristianismo, senão um conjunto de "bons conselhos para a vida diária"? Estas pessoas, as quais Paulo se refere, negam com sua própria vida aquilo que aparentam ser. Negam com suas práticas mundanas e pecaminosas que o "evangelho é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê". (Rm 1.16)

Paulo, em Romanos 1:16, diz que não se envergonha do evangelho de Cristo. Mas o evangelho de Cristo se envergonha de muitos que se dizem cristãos e não o são, de fato e direito, mas cuja vida serve apenas como motivo de blasfêmia do nome de Deus entre os ímpios. Devemos vigiar e nos afastar destes.

Pense nisso. Deus está te dando visão de águia!

http://apenas-para-argumentar.blogspot.com/2010/08/o-carater-dos-homens-em-dias.html

Pr. Ricardo Kropf S. Fermam; D.D.; D.Sc.
Pastor-Titular da Igreja Batista Ministério Reviver - Vila da Penha/RJ

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